Não é a primeira vez que eu digo ou escrevo: 2014 não tá fácil. Sorte a nossa que o ano passou rápido e daqui a pouco já é 2015. Porque olha, perdemos um bocado de gente talentosa este ano. Ontem cheguei em casa e li a triste notícia da morte do Luciano Leindecker. Perdemos um Cidadão. Perdemos precocemente um baita artista.
Vibrei quando a Cidadão Quem anunciou a turnê de comemoração dos 20 anos de carreira. Que coisa linda! Feliz de nós que temos 20 anos de registros de puro talento. Ainda assim, o cara foi cedo demais. Eu, pelo menos, consegui acompanhar os últimos 14 anos… E o ser humano é tão inteligente, mas ainda somos vencidos pelas doenças. E aí vem um sentimento enorme de impotência. Luciano morreu em virtude de complicações relativas a um câncer. E eu só consigo dizer: que grande bosta! Porque eu ainda estou digerindo tudo isso.
Que o Cidadão descanse em paz.
E agora, uma música lá do “Girassóis da Rússia”. Dos tempos que eu era uma pirralha e dava os primeiros passos como tiete.
“Eu tô indo embora, estava de passagem. Volto outra hora, na cara e na coragem”.
Venho por meio deste me desculpar pelos mais de dois meses de ausência no blog. Mas a Carol segurou, e muito bem!, as pontas. Tem muita coisa bacana por aqui. O blog continua, sempre. Mesmo que a gente fique meio off de vez em quando.
E esse post é para registrar que na quinta-feira (16), o The Backstage Blog apareceu na capa do caderno Variedades do jornal O Informativo do Vale. E eu nem tive influência na escolha da pauta, garanto. A matéria ficou muito legal e bastante gente viu e comentou sobre comigo.
Dá uma satisfação imensa de ver nosso trabalho reconhecido. E continuem nos levando a sério, a gente faz tudo pensando no que o leitor vai gostar de ver por aqui. heh
Para quem quiser ler, tem a matéria completa AQUI.
Edu K é o legítimo boy de mão cheia, boy faz-tudo, boy multiuso: faz cama, mesa, banho, composição, execução, produção, capa, foto e release. Sempre um entusiasta das novidades do mundo da música, da moda, das artes e afins, não vai ser agora que ele vai aposentar seu radar de tendências. Prestes a lançar seu novo EP intitulado “Boy Lixo”, temos, nas linhas abaixo, um rápido panorama de sua carreira (escrito pelo próprio). Respira e vai:
Com seu novo EP, seu terceiro lançamento solo, Edu K invade as pistas bombardeando o povo descolado com o sub-grave monstro do mais novo gênero canibalizado pela EDM, a famigerada Eletronic Dance Music, que à tudo devora com sua antropofagia pós-moderna: o TRAP, mais um dos sub-gêneros do hip-hop, domínio que sempre esteve presente em sua carreira.
Foto: Fernanda Chemale
Vocalista e fundador da influente Defalla, banda que carrega debaixo do cinto alguns dos álbuns mais icônicos do rock brasileiro como “Papaparty”, “It’s Fucking Boring To Death” e “Kingzobullshit”, e a prova cabal de tal afirmação é “Meu Nome É Edu K”, seu primeiro disco solo, de 95, onde implementou o R&B moderno e eletrônico nos corações e mentes dos baileiros brazucas, emplacando o hit “Vai Tomar No #@”.
Em 2005, veio o mundo: Edu K lança, pelo aclamado selo alemão Man Recordings, seu segundo albúm solo, “Frenétiko”, inciando, assim, uma estrondosa carreira internacional como DJ, detonada pelo sucesso do single “Popozuda Rock’ N’ Roll”. Dessa forma, o músico acabou rodando o mundo inteiro, da Austrália aos Estados Unidos, passando pela Europa, como um dos DJs brasileiros mais requisitados no exterior e remixando grandes nomes como Larry Tee, Perez Hilton, BennyBenassi, Don Omar e Gotan Project.
Também um produtor de mão cheia, Edu K já trabalhou com grandes nomes: Otto, Chico Science, Detonautas Roque Clube, Pavilhão 9, Mundo Livre S.A., Câmbio Negro, entre outros. Recentemente, produziu “Costa do Marfim”, o novo álbum da banda Cachorro Grande, grandes bastiões do rock’n’roll tupiniquim. Também produziu o “King Kong Diamond”, último petardo da banda Comunidade Nin-Jitsu (que vai ser lançado ainda esse mês), precursores da mescla funk carioca + rock, além de “Mais De Mil Palhaços No Salão”, a estreia solo de Daniel Tessler, o Maluco do Cartaz do Pânico, e “Monstro”, o esperado novo disco do Defalla (com previsão de lançamento para a primeira metade de 2015).
“Boy Lixo” é um disco temático – uma espécie de crônica dos personagens que povoam nossas modernas paisagens urbanas, como o famigerado tipo que dá nome ao EP – uma corruptela do Boy Luxo – um bonitão tudo de bom, com uma certa malandragem nada coxa das ruas : ele é o cara dos seus sonhos, mas, quando você acordar, ele não vai mais estar por perto; as glamorosas “Valley Girls”, gatas descoladas do Vale Dos Sinos, região da Grande Porto Alegre, que está para a capital assim como o San Fernando Valley está para L.A., um paraíso de meninas abastadas que andam voando por aí nas suas SUVs, com uma garrafa de vodka numa mão, o celular da moda na outra, um par de Louboutins nos ricos pés pedicurados e uma arma letal em sua Fendi handbag, uma coleção de cartões de crédito sem limite e “20çeduzir” um hino à sedução suada e quente, música tema da festa Porto Alegrense de mesmo nome, da qual Edu K é sócio fundador, com seus personagens transantes e suas cenas picantes na pista.
Com participações especiais – que são especiais de verdade –, como as transudas cantoras, Kekell Sá, DeahRiccio e Andréa Cavalheiro e a diva mór do pop Paraense, Keila Gentil, cantora arrasa quarteirão do grupo de tecnobrega mais amado no mundo todo, a Gang do Eletro, “Boy Lixo” vem para afirmar e firmar aquilo que todo moderno descolado, povo outrora conhecido pela infame alcunha de “hipster”, já está cansado de saber: Edu K é o grande rei das pistas do nosso Brasil festeiro e, como diz a canção, vai te botar pra dançar!
Eles tinham ótimo primeiro disco, um amadurecimento nos discos seguintes, estavam prestes a debutar na estrada e tinham uma marca registrada. Quando tudo se solidificou, eles resolveram quebrar a casca e se libertar. Foi mais ou menos assim que Beto Bruno me falou sobre o “Costa do Marfim”, disco novo da Cachorro Grande, num boteco próximo ao Opinião, poucas horas do show de lançamento, dia 9.
Montagem de palco e passagem de som durante a tarde (Foto: Carol Govari Nunes)
Entre um tampico e um suco de uva, Beto falou da necessidade que a banda sentiu em sair do fácil, do cômodo, do sucesso certeiro. Disse que estavam cansados de fazer cover deles mesmos e é enfático quando comenta que a paixão deles é por fazer música, e não sucesso. Mesmo com o jogo ganho (o público conhecendo todas as músicas, turnês bem sucedidas etc), mesmo com tudo lindo, eles se sentiam musicalmente amarrados – daí o lance de quebrar a casca, de se libertar. Inclusive, acho que a palavra “libertador” foi uma das mais usadas pelo vocalista. Dividido entre o cansaço da agenda lotada de entrevistas (mais de 89 (!) desde o lançamento do disco) e a ansiedade pelo show da noite, Beto comentou que o tesão por fazer shows voltou. Não só nele, mas em todos os músicos, e isso era absolutamente visível durante a montagem de palco e a passagem de som.
Quando conversamos sobre a influência de Edu K no produto final, Beto diz que “Edu é do mundo”, por isso o chamaram para a produção do disco. Além de ser um sonho antigo em trabalhar com o líder do Defalla, a banda sabia que Edu seria crucial para a mudança da sonoridade da banda. “Nada no Rio Grande do Sul (e nem no Brasil) se parece com o Edu K”, comenta Beto, pouco antes de sermos interrompidos para ele tirar uma foto com um fã.
Continuamos num papo que vocês já devem ter lido por aí: que eles criaram tudo na hora, que não ensaiaram antes de gravar o disco, que é o disco mais experimental, que o Edu K fez eles pensarem um jeito diferente de fazer música. O que talvez vocês não tenham lido por aí é sobre a dificuldade de chegar onde a banda chegou. Quer dizer, chegar é fácil, o problema é se manter. E a Cachorro Grande, mesmo sem ter tido muito apoio da mídia no começo, tem se mantido firme desde então. Mas essa segurança não impediu a mudança sonora e estética da banda – quando falo em estética, penso (e Beto confirma) que não adiantava mudar o som e eles aparecerem de terninho, por exemplo. E também não adiantava continuar fazendo sucesso e eles se sentindo musicalmente estagnados. E, por mais a vida de estrada pareça “rock’n’roll all night and party every day”, Beto fala com muita seriedade da ideologia da banda, do trabalho duro de fazer um disco melhor que o outro, um show melhor que o outro, de se reciclar.
Quando somos interrompidos novamente para Beto tirar outra foto com duas fãs, ele diz que eu sou sua fotógrafa particular e que acabei de chegar da França. E foi assim que, por ora, terminamos um papo confortável sobre a cena local, a dificuldade do começo, o trabalho da banda, alucinações da vida y otras cositas más.
A banda interagiu com o público durante todo o tempo. Beto Bruno dedicou o show ao seu pai, Bocajão, falecido recentemente (Foto: Carol Govari Nunes)
Costa do Marfim, o show
Um público por volta de 980 pessoas aguardava ansiosamente por Beto, Gross, Pelotas, Coruja e Boizinho. Dividido em dois atos (o primeiro com as músicas do disco novo; o segundo com o “baile dos Cachorro Grande”), o show foi alucinante. As músicas novas foram executadas perfeitamente, e abrir com “Nuvens de fumaça” foi uma ótima escolha. Quem estava no meio do público era Edu K. Me arrisco a dizer que ele era um dos mais emocionados de todos que estavam ali. Também, pudera. Beto comentou, durante a tarde, que Edu não foi só um produtor, mas um integrante da banda, contribuiu em absolutamente tudo que estava no disco – as músicas que estavam sendo tocadas também eram dele.
E foi mais ou menos nesse clima que o show terminou (Foto: Carol Govari Nunes)
O show seguiu com “Eu não vou mudar”, “Como era bom”, “Crispian Mills”, “Use o assento para flutuar”, “Eu quis jogar” e “O que vai ser”, e, mesmo sabendo que esse era todo o Ato 1, confesso que fiquei esperando mais músicas do disco novo. Desde que foi lançado, não ouço outra coisa senão o Costa do Marfim. E ver todo esse disco no palco deve ser a vontade de muita gente. Entretanto, preciso ser coerente e dizer que o Ato 2, para o público, em geral, foi o mais animado do show. Na verdade, são duas situações completamente diferentes: o Ato 1 é um desfrute sensorial, são várias texturas, somos jogados para dentro do (baita) telão e suas imagens psicodélicas, as músicas são tocadas em cima de uma base, é outro clima. O Ato 2 é um show pra fora, animadão. Mesmo que eu esteja total na vibe Costa do Marfim, entendo que foram as músicas “Lunático”, “Hey amigo”, “Deixa fuder”, “Bom brasileiro”, “A hora do Brasil”, “Roda gigante”, “Que loucura”, “Dia perfeito”, “Sinceramente”, “Velha amiga” e “Você não sabe o que perdeu” que levaram todos à loucura (externa).
Quem subiu para cantar “Helter Skelter” junto com a banda foi Edu K. “Subiu” foi um jeito educado de dizer que ele entrou correndo, arrancando o microfone do pedestal do Coruja (consequentemente perdendo o cabo do microfone, ou seja, começou a cantar sem sair som) e praticamente se jogando em cima do Beto Bruno. Foi um final catártico para todos, com direito a beijos na boca e bateria destruída no palco. E isso é tudo que eu me permito escrever – só quem estava lá é que sabe.
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Nos dias 17 e 18 será a vez de São Paulo conhecer o Costa do Marfim. Uma boa viagem a todos.
Se o rock não está lá muito fácil pra mendicância, pelo menos os Acústicos e Valvulados incluíram certa fineza e elegância na chinelagem: ao completar 1500 shows na bagagem, a banda lançou o disco “Meio doido e vagabundo – o fino do rock mendigo” na noite de 21 de setembro, no Opinião. Com uma plateia que cantou absolutamente todos os hits da banda como, por exemplo, “Até a hora de parar”, “O dia D é hoje”, “Milésima canção de amor” e “Remédio”, entre outras tantos clássicos, “Efeito”, “Chalaça total” e “Tia Rita”, do novo disco, também foram entoadas pelo público.
O disco está disponível para audição em diversos sites, inclusive no youtube.
Abaixo, a resenha oficial do “Meio doido e vagabundo – o fino do rock mendigo”:
Era 1991, e o mundo entrava de cabeça nos sons de Seattle, a MTV dava os primeiros passos no Brasil, e um bando de moleques loucos pra formar uma banda andava fissurado por um estilo pouco comum: o Rockabilly. Depois de verem um show dos Stray Cats em São Paulo, começaram a explorar um universo de sons obscuros tirados de LPs e K7s que poucos conheciam ou tinham interesse em conhecer. Eram pérolas da Sun Records, bolachões importados dos mestres Chuck Berry, Buddy Holly, Eddie Cochran, Jerry Lee Lewis, entre outros tantos. Nunca foi uma escolha óbvia, nem a coisa mais normal do mundo, mas era de verdade. Assim nasceram os Acústicos & Valvulados.
Show de lançamento do disco, 21/09/14. Participação de Brisa Daitx em “Milésima canção de amor” (Foto: Carol Govari Nunes)
Se a vertente musical que alimentava o espírito da banda não estava exatamente na moda, digamos que, passados alguns anos, mostrou-se uma sólida base em cima da qual o grupo evoluiu, criou corpo, desenvolveu habilidades e definiu uma sonoridade. Hoje, são considerados um dos maiores nomes do Rock Gaúcho, depois de 23 anos de muita, mas muita estrada e quase 1.500 shows na bagagem. E não é nenhum exagero dizer que os Acústicos & Valvulados fazem parte de um seleto grupo de resistência do Rock Brasileiro, defendendo essa bandeira “nem que seja mendigando”, conforme brincam os integrantes do grupo.
A visceralidade da música sempre foi o combustível. Mais instinto do que reflexão, ainda que nessa equação tenha havido espaço pra algumas derivações ao longo da discografia. Experimentos, questões estéticas, relevâncias e irrelevâncias da “Linha Evolutiva da Música Pópular Brasileira” (conforme o mestre Raulzito) nunca foram mais importantes do que o sublime momento de contar 1, 2, 3, 4 e fazer o Rock’n’Roll rolar pelos bares, festas, feiras e festivais. Não tem plano. O que vale é o desafio e a dedicação, é a coisa acontecendo, é a banda tocando do melhor jeito que sabe pra entreter o público a cada fim de semana, numa “Never Ending Tour” aos moldes de Bob Dylan.
Meio Doido e Vagabundo – O Fino do Rock Mendigo, sétimo trabalho de estúdio, de alguma forma sintetiza essa história toda. Produzido de forma independente e distribuido em formato digital pela Thurbo Music a partir do dia 22 de julho, reúne 11 faixas inéditas e o single “Efeito”, já lançado no primeiro semestre, e que acabou entrando no disco devido à ótima aceitação do público. O CD físico chega em setembro, junto com um novo clipe, e mais adiante está prevista ainda uma edição especial em Vinil.
Enquanto o elogiado Grande Presença! (2010) soava garageiro, Lo-Fi, Meio Doido e Vagabundo soa maior, mais impactante nos timbres e arranjos. Produzido pela banda e gravado, mixado e masterizado pelo uruguaio Sebastian Carsin no Estúdio Hurricane, em Porto Alegre, preservou a dinâmica de usar bases “ao vivo”, e incrementou a poção valvulada com peso e força. Experimente dar volume, nem que seja nos fones de ouvido, pra sentir na pele o resultado.
Abrindo os trabalhos, a faixa-título invoca um Rock’n’Roll Clássico, com riff forte e direto, coisa rara de se ver nos dias de hoje, especialmente no Brasil. É um elogio à curtição, aos que vivem fora dos trilhos do trem, uma tiração de sarro com o politicamente correto. Rolling Stones e AC/DC inegavelmente dão o tom da bolacha. E não por acaso, já que são eles os mestres que seguem na ativa, movendo velhas e novas gerações do mundo roqueiro, apesar de muitos anunciarem a morte do estilo quase toda semana.
Mas não é só. Fizeram também um rockão à lá Tutti Frutti pra homenagear a “tia” Rita Lee, usando como inspiração o episódio da polêmica prisão da cantora durante seu show de despedida, em 2012. Fizeram uma marchinha-bebum mezzo Oktoberfest, mezzo Rockabilly, temperada por um tom Tarantinesco, batizada “Chalaça Total” (gíria usada pela turma). Fizeram um ode à “Sarjeta”, num tirambaço de menos de 2 minutos de guitarras e pianos à lá Chuck Berry e seus asseclas. Fizeram até mesmo uma canção grudenta, chamada “Corações Partidos” – ácida, romântica e realista, sem firulas ou exageros açucarados.
Paulo James, responsável por 7 composições do disco. Show em São Leopoldo, 30/05/14 (Foto: Carol Govari Nunes)
O baterista Paulo James assina sete músicas (uma em parceria com Luciano Albo), o guitarrista Alexandre Móica outras quatro (das quais canta duas), e ainda restou espaço para uma estreia: a primeira composição assinada pela banda toda, “Vai se Danar”, que surgiu durante as sessões do disco anterior.
No fim das contas, o ideal pra ouvir Meio Doido e Vagabundo bem ouvido é imaginar a estrada, o boteco, a festa acontecendo. E se depois dos 40 e poucos minutos de curtição ainda restar alguma necessidade de buscar uma mensagem, que seja aquela da visceralidade, artigo raro, quase extinto pelos marqueteiros de plantão. Ou então a auto-ironia do “Rock Mendigo”, que ri do seu próprio destino enquanto sacaneia um cenário musical fake e descartável.