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Na noite de 3 de junho, no Bar Opinião, em Porto Alegre, Mel Lisboa conduziu o espetáculo Tributo a Rita Lee com a familiaridade de quem já habita essa personagem há anos. Divertindo-se muito, a filha de Bebeto Alves – que tocou “Ovelha Negra” e “Doce Vampiro” com um violão herdado do pai –, encarnou Santa Rita de Sampa e, mais do que cantar um repertório repleto de hits, narrou a trajetória de Rita: contextualizou lançamentos, relembrou momentos-chave da carreira da homenageada e ajudou o público a percorrer a linha do tempo da artista. Em Porto Alegre, Mel instigou a plateia a interagir perguntando quem sabia qual foi o primeiro grande sucesso de Rita após o fim da fase Tutti Frutti, compartilhou detalhes – que Rita também adorava contar – sobre as saborosas parcerias com Roberto de Carvalho, incluindo aqueles momentos em que o casal transformava o tesão em composição, como em “Mania de Você”, transformando a intimidade em canções que atravessaram décadas e seguem entoadas de forma uníssona pelo público. 

E talvez o maior mérito de Mel Lisboa seja compreender que um tributo à Rita Lee não se sustenta apenas na reprodução das canções. Sua condução demonstra um entendimento da artista, da obra e, principalmente, do público que a acompanha há décadas. Com muito carisma, Mel alterna informações históricas, histórias de bastidores e momentos de humor sem que o show perca seu ritmo.

Foto: Carol Govari

Na plateia, o retrato era tão interessante quanto no palco: ao meu lado, havia uma mulher 70+ (conversamos enquanto aguardávamos o show) usando All Star preto, casais que provavelmente viveram a explosão dos Mutantes, senhores ajustando seus aparelhos auditivos, e todos cantavam juntos, divertiam-se juntos. Dançavam mais do que o público 18-23 que presenciei recentemente no mesmo espaço. Fiquei pensando o quanto essa plateia – que, pelo que eu me lembre, foi a mais diversa, de crianças até 60+ que já vi no Opinião – refletia uma transformação da sociedade brasileira: a pirâmide etária está virando e, em poucos anos, teremos mais pessoas velhas do que jovens. Essa é uma discussão que minha colega Gabi Gonçalves trouxe em uma conversa e eu nunca mais consegui parar de pensar sobre. E, diante desse cenário, somos obrigados a pensar não apenas em saúde e previdência, mas também em cultura, lazer e pertencimento. Como queremos envelhecer? E que espaços estamos construindo para que futuros velhos possam continuar ocupando a cidade, cantando, dançando e encontrando sentido coletivo?

Claro que esse não era o mote principal e eu fui ao Opinião somente para me divertir com Mel Lisboa cantando Rita Lee, mas este show me ofereceu uma resposta possível. Ali, mais do que em qualquer lugar, nos últimos tempos, vi o envelhecimento como continuidade – até porque a música sempre funcionou como ponte geracional e ferramenta de permanência social. Fiquei pensando, inclusive, como Rita também nos deixou um exemplo (embora ela não se achasse um bom exemplo) singular sobre como envelhecer em uma indústria historicamente obcecada pela juventude. Diferentemente de muitos artistas que tentam congelar a própria imagem no tempo, ela transformou o envelhecimento em parte da sua obra, fez piada com o próprio corpo, falou abertamente sobre excessos, maternidade, menopausa, amor maduro e finitude, sem abrir mão da irreverência que a consagrou. 

Foto: Carol Govari

Mais do que um tributo, o show funciona como uma celebração coletiva da memória afetiva. Não senti nostalgia ou pesar por termos perdido Rita Lee – mas alegria e gratidão por termos tido Rita Lee, que foi embora em um disco voador, mas segue cumprindo sua missão de nos ensinar a desafiar convenções. E talvez seja justamente isso que precisaremos fazer diante do futuro que se desenha: inventar novas formas de envelhecer, porque, não sei vocês, mas, assim como Rita, eu tô ficando velha e cada vez mais doida varrida. 

O curso de Produção Fonográfica da Unisinos promove, no dia 16 de junho, a primeira edição do Festival B-Week, evento que marca a retomada da Rádio Unisinos no formato web e conecta música, cultura urbana e experiência acadêmica em uma programação gratuita voltada à cena contemporânea. Realizado por estudantes da disciplina Projeto II – Festival, do curso de Produção Fonográfica, o B-Week busca transformar a universidade em espaço de circulação artística e encontro entre comunidade acadêmica, artistas e público externo.

O festival nasce durante o período de avaliações finais da universidade, conhecido como Grau B, propondo uma experiência que articula formação, produção cultural e música ao vivo. O line up reúne nomes da cena gaúcha e nacional ligados ao rap, R&B, funk, black music e música brasileira contemporânea, refletindo a diversidade sonora e estética da nova geração.

Entre as atrações confirmadas estão a rapper Cristal, um dos principais nomes do rap contemporâneo brasileiro; a artista, DJ e MC B.ART; o projeto Baile do Duda e Daw, formado pelo produtor musical Duda Raupp e o beatmaker Dawmata; além do rapper e produtor Nitro Di, vocalista do lendário grupo gaúcho Da Guedes, e da DJ e multiartista ELLE P. O mestre de cerimônia da noite é Luka Pumes, gestor criativo e comunicador do Rap In Cena. A programação destaca artistas que transitam entre o hip hop, as sonoridades afrodiaspóricas e a música brasileira contemporânea, fortalecendo o diálogo entre universidade e cena cultural local.

O festival também simboliza uma nova fase da Rádio Unisinos, projeto histórico da universidade que retorna ao ar em 2026 com proposta multiplataforma vinculada ao curso de Produção Fonográfica e ao Instituto Unisinos de Arte e Cultura. Com programação voltada à música, cultura, comportamento e divulgação científica, a rádio aposta em diversidade, protagonismo feminino e integração digital, ampliando sua atuação como núcleo cultural e espaço de formação estudantil.

SERVIÇO COMPLETO

O quê: Festival B-Week

Line Up: Cristal, Nitro Di, B.art, Elle P, Baile do Duda e Daw
Data: 16 de junho

Horário: 18:30

Local: Teatro Unisinos (parte externa, entrada pelo andar B. Se estiver chovendo, vai acontecer dentro do Teatro). Avenida Nilo Peçanha, 1600. Boa Vista, Porto Alegre.

Entrada: gratuita

Realização: Produção Fonográfica e Rádio Unisinos

Apoio: Montecchio Pizzaria, Rap In Cena e Red Bull 

Vinte e cinco anos atrás, minha irmã apareceu com o Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, da Marisa Monte, em casa: era uma época em que nos sentávamos no sofá da sala “da frente” – a sala do som, que tinha um sofá branco, um abajur no canto e uma mesa de centro, onde recebíamos visitas, amigos e fazíamos as festinhas de aniversário – para exclusivamente ouvir um CD (coisa que eu ainda faço, diga-se de passagem). Até hoje, sei de cabo a rabo todas as faixas, na íntegra e na ordem, desse disco da Marisa Monte. O tempo passou, muitos outros artistas entraram na minha vida, mas esse álbum ficou entranhado na minha memória como algo que marcou muito aquela época. 

Quando eu soube que a turnê PHONICA, onde Marisa comemora seus quase 40 anos de carreira, passaria por Porto Alegre (na capital, ela teve realização da T4F, promoção da 102 FM, e a Maia Entretenimento como parceira local), marquei na agenda como algo imperdível – e, de fato, foi.

Foto: eu mesma, com o celular, pois fui sem fotógrafo e esqueci de levar a minha câmera 😀

No último sábado, 6 de dezembro, o Parque Harmonia recebeu 15 mil pessoas para prestigiar o PHONICA – Marisa Monte & Orquestra Ao Vivo que, antecipo, não é só um concerto: é uma espécie de rito sonoro, um mergulho coletivo no lugar onde a memória afetiva encontra uma nova pele. Ao lado de 55 músicos, instrumentistas e musicistas, Marisa surge inteira, precisa e meticulosa até no silêncio. No palco, a orquestra, regida pelo maestro André Bachur, não acompanha: ela dialoga. E é nesse diálogo que PHONICA encontra sua força original – tudo cabe, tudo se expande; os arranjos soam como um abraço e, música após música, vai ficando muito claro: a artista não está apenas revisitando seu repertório de quase quatro décadas: ela está reconstruindo-o, camada por camada, numa costura muito bonita e delicada, diante de todos nós.

E talvez seja por isso que, ao final, a sensação não seja de retorno ao passado, mas de deslocamento suave para um lugar onde o tempo se dobra – onde “tudo que se quer, tudo que se precisa” encontra espaço para respirar. Saí do show bastante reflexiva, com um sentimento morno no peito, pensando o impacto e a permanência de letras, arranjos e memórias na nossa vida. Marisa, naquele palco imenso, ao apresentar “Sua Onda” – parceria mais recente com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown –, disse que queria trazer “algo fresco”, não apenas canções antigas – para mostrar que sempre está mirando no futuro. E talvez essa seja a sacada de uma turnê comemorativa: revisitar a própria história com respeito, ternura e precisão, mas também pronta para (se) reinventar (no) o futuro. 

A artista encerrou o ano do PHONICA em Porto Alegre, para um público que a ovacionou do começo ao fim. E, enquanto celebrava sua história com tanta beleza, ficou claro que olhar para o passado pode ser também um modo de abrir portas para o que há por vir. Que 2026 venha repleto de melodias que acolham e futuros que a gente tenha sangue no olho para inventar. Feliz ano novo! 🙂

“Eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo”. Cito mentalmente um trecho presente em A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, enquanto fico apertando o REW e o FF da minha memória para reviver o último sábado, 21 de dezembro. Se, enquanto escrevo, lembro de uma névoa úmida onde as palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, é por um motivo bastante justificável: o show da Pitty no Araújo Vianna.

Após mais de um ano longe da capital, Pitty voltou a Porto Alegre para apresentar seu novo show, onde dá um “rolê aleatório” (palavras dela) por todos os seus discos. Na banda, uma super novidade: agora, além de Martin Mendonça na guitarra e Paulo Kishimoto no baixo, a cantora é acompanhada por Nico, multi-instrumentista gaúcha, na bateria (é as gu!!!). A entrada de Nico na banda é um marco não apenas para o contexto da música brasileira, mas para a cena do rock mundial como um todo. Em um cenário historicamente dominado por homens, a presença de mais uma mulher no palco não é apenas uma conquista individual, mas uma representação de resistência, visibilidade e redefinição de papéis. Pitty sempre foi uma figura que questionou as normas, tanto em suas letras como em sua postura de palco, e Nico assumir as baquetas da banda reforça ainda mais essa imagem coletiva de visibilidade feminina.

Todas as fotos por Fernando Chassot

O vídeo de abertura já dava o tom do que a plateia estava prestes a presenciar: uma noite cheia de pulsão de criação, de vida. Assim como Lispector, Pitty não se limita ao intelecto. Ela não cria apenas para ser entendida, mas para ser sentida, experimentada. Cada verso cantado vinha carregado de emoções, como as palavras de Clarice, que, transfundidas de sombras, ganham vida na atmosfera, se espalhando no ar como um vapor que nos envolvia por inteiro. A artista segue com uma capacidade quase irritante de transformar algo tão efêmero quanto o som em uma experiência física e quiçá palpável. Não importa se as palavras são simples ou complexas; o que realmente importa é como elas reverberam em nossos corpos, como elas nos tocam, se entrelaçando com o que somos.

No palco, a figura de Pitty é a personificação da “névoa úmida” que Clarice menciona. A cada ano que passa, ela se torna mais do que uma intérprete: ela é a música; é o som que se mistura com o ambiente, é o corpo que se dobra e se entrelaça com as melodias. Ao serem executadas ao vivo, suas músicas, como o que Lispector descreve, se tornam estalactites, renda, música transfigurada de órgão. E cada acorde entoado pela banda, extremamente conectada, parece formar uma rede de sentimentos onde a leveza e o peso se equilibram com uma elegância paradoxal, tal qual o solo de Martin durante a apresentação dos músicos.

A transição entre músicas foi marcada pela fluidez já conhecida da artista. Pitty, muito à vontade, se entregava ao calor do momento e à sincronia entre o que cantava e o que vivia ali, em tempo real. Em “Equalize”, por exemplo, que sempre tem um momento do refrão cantado à capela, a letra se tornava um eco corporal, como se cada estrofe fosse uma extensão de si. Em “Desconstruindo Amélia”, o jogo de cena que antecede a canção dá um plus à celebração da autonomia e da força feminina. Em “Um Leão”, a mesma coisa: é uma escrita, mas não no papel: é a escrita da carne, do corpo em movimento.

É chover no molhado dizer que Pitty faz do palco o seu território, onde não há lugar para retração ou para convenções. Nesse “rolê aleatório”, ela reinventa, através do repertório e da cinesia, sua própria estética, que reflete o caos e a beleza de sua jornada. Ou seja, de aleatório, o show não tem nada: passa de forma concatenada por toda a sua discografia, e o mais divertido é que Pitty pode fazer isso porque tem estofo para isso: não precisa nomear uma turnê, não precisa encaixá-la em uma determinada era, não precisa usar letreiros. Em uma época em que recebemos conteúdo mastigado e sentimos necessidade de nomear tudo, onde artistas e influenciadores se moldam às expectativas da audiência, Pitty apresenta um show banhado em subjetividades. Entre e fique à vontade para entender como quiser. Não é um show que vem com tutorial do YouTube, é preciso saber interpretar nas entrelinhas.

Se eu puder escolher, escolho justamente o que fixa para sempre a experiência na memória do corpo: I couldn’t care less se a turnê da Pitty não tem nome ou se ela não lança um álbum há sei-lá-quanto-tempo. Quero o encontro com a profundidade que só acontece no espaço-tempo de um show ao vivo, quando a gente se despe de si e se preenche do outro, onde a arte desafia os limites da palavra convencional e se faz entender, não pela lógica ou pela intelectualidade, mas pela emoção direta.

Da plateia, ouvi comentários de que Pitty pouco se comunica com o público e me peguei pensando: quando canta, ela não está apenas transmitindo um conteúdo, mas se tornando, fisicamente, o instrumento de uma comunicação genuína. Quais palavras são necessárias entre uma canção e outra? Assim como a protagonista de Lispector, que, em seu silêncio e em sua busca, se faz mais “real” por não precisar se justificar ou se enquadrar, Pitty, mais de vinte anos depois, segue nos convidando a perder a rigidez da linguagem e nos permitir ser guiados pelo que de fato importa: a música.

Sei que a turnê fica na estrada até março do ano que vem, então fica a sugestão de que, quem puder, presencie essa explosão de arte e de conexão. Garanto que cada show será uma oportunidade de se conectar novamente com o que nos move e inspira.

Feliz ano novo!

Meu primeiro show pós-licença-maternidade aconteceu em meio ao caos de uma Porto Alegre que sofria com as chuvas – e com o descaso das autoridades. Bairros destruídos, árvores caídas no meio do asfalto, sinaleiras desligadas, mais de um milhão de pessoas sem luz, e com o prefeito pedindo motosserra emprestada à população e tentando falar com a empresa – que privatizou – via Twitter (X). Parece piada, mas não é. Ainda hoje, cinco dias após o show, milhares de pessoas seguem sem água, sem energia elétrica e sem assistência do governo local. E a noite de 18 de janeiro serviu como uma mola propulsora, onde o Planet Hemp endossou e avivou ainda mais o sangue no olho do público que lotava o auditório Araújo Vianna.

 A banda veio à capital gaúcha com a turnê do excelente Jardineiros, álbum que levou duas categorias no Grammy 2023 (“Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa” e “Melhor Interpretação Urbana em Língua Portuguesa”), lançado 22 anos após o último disco de inéditas da banda.

Eu nunca gostei muito de fumar maconha, mas sempre adorei os maconheiros mais famosos do Brasil. Na adolescência, fui completamente capturada pela sonoridade e pelas letras do Planet Hemp, que me faziam refletir sobre questões políticas, sociais, econômicas, culturais e raciais. Pra mim, até hoje, segue sendo uma das melhores e mais relevantes bandas do país. No público, embora eu parecesse a única com os olhos vermelhos por outro motivo (quando entraram no palco, uma energia absurda tomou conta do auditório e eu instantaneamente comecei a chorar), pessoas de diferentes faixas etárias se amontoavam, da maneira mais gentil possível, para chegar mais perto da banda. Aliás, foi a primeira vez que eu vi um show no Araújo Vianna sem grades e com a galera grudada no palco desde o primeiro segundo do show. Pode parecer folia, mas não foi: BNegão fez o convite e, quem quis, chegou perto, e quem não quis, ficou em seus respectivos lugares marcados.

Todas as fotos por Leandro Monks

Com um show extremamente político – e não poderia ser diferente –, o Planet tocou nada menos do que 35 músicas do seu repertório. Focado, óbvio, no álbum mais recente – mas óbvio, também, sem deixar os clássicos de lado –, a banda esteve no palco por duas horas. BNegão (vocal), Marcelo D2 (vocal), Formigão (baixo), Pedrinho (bateria), Nobru (guitarra), DJ Venom e Daniel Ganjaman – produtor do disco, que do alto do seu praticável se revezou entre guitarras e teclados – falaram muito sobre os problemas do Rio de Janeiro, mas vinculando o tempo todo com os problemas de Porto Alegre e de todo o país. Os músicos fizeram reverência à cena musical local – em especial a dos anos 80 e às bandas Defalla, Garotos da Rua, TNT e Os Cascavelletes, e não deixaram de citar também seus contemporâneos: Comunidade Nin-Jitsu, Da Guedes e Ultramen (com um pedacinho de “Dívida” no meio de “Contexto”). Ainda, Mateus Aleluia e Os Tincoãs, Chico Science & Nação Zumbi, Mr. Catra e Ratos de Porão foram homenageados. Marcelo Yuka, um dos principais parceiros do grupo, foi lembrado durante todo o show, especialmente porque o músico faleceu em 18 de janeiro de 2019 e estava fazendo cinco anos de sua morte naquela noite. Rolou também a participação especial do guitarrista Jacksom, ex-integrante da banda, e que esteve na fatídica prisão do Planet em 1997.

BNegão e D2 reforçaram a importância das parcerias e do coletivo, citando a Opinião Produtora como decisiva na carreira do Planet, visto que Porto Alegre foi uma das primeiras cidades onde a banda aconteceu, de fato, depois do Rio de Janeiro. Da plateia, um coro emocionado mostrava que os oito anos que POA esperou para rever o Planet Hemp valeram a pena; todo mundo entregue, com pouquíssimos celulares ligados, conectados através do que realmente importa: a música.  

No fim, saímos todos do Parque da Redenção com a certeza de que o Planet Hemp precisava mesmo voltar. Eles estavam fazendo muita falta no atual cenário mainstream (embora eles sigam com a postura underground) para bagunçar, apontar, colocar o dedo na ferida, provocar. Precisávamos de uma banda com a sonoridade inconfundível do raprockandrollpsicodeliahardcoreragga e com essa atitude contestadora, sem papas na língua, falando sobre desigualdade, violência, política, legalização da maconha; criticando o sistema, confrontando a censura (2024 e estamos falando de censura!), desafiando as normas sociais e com uma postura de absoluta resistência. O tempo fez muito bem para o Planet Hemp. E eu espero que eles taquem muito, muito, muito, MUITO fogo nessa porra agora.