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Eduardo Galeano disse: recordar, do latim re-cordis, significa “voltar a passar pelo coração”. Quando dois dos maiores compositores da música brasileira se encontram no palco e desfilam hits de quase quatro décadas de existência, muitos sentimentos voltam a passar por nossos corações. Músicas que contam amores e desamores; que discutem e se abraçam; que compartilham certezas, belezas e dúvidas; que falam do passado, do presente e do futuro; que têm perguntas que ainda esperam resposta.

Quando vi que Pitty iniciaria uma turnê com Nando Reis, minha primeira reação foi: como assim? Sério? Como é que Pitty vai dividir seu local mais sagrado – o palco – com outro artista?  A resposta eu tive nos dias 22 e 23 de outubro, no palco do Araújo Vianna, em Porto Alegre, quando vi que o show PittyNando – As Minhas, As Suas e As Nossas não é uma divisão: é uma soma.

Nessa soma de coloridos tonais (e geracionais), de texturas harmônicas, de intercâmbios melódicos e de permutações disponíveis e possíveis (e se não for possível, aparentemente Pitty, Kishimoto e Nando inventam), entendemos por que Pitty e Nando se juntaram, e por que são raras as parcerias envolventes: ambos não se apoiam em figuras formais ou em artifícios instrumentais. Não há exibicionismo exacerbado e nem disputa de ego. O que há, sim, nesse jogo-show, é um duelo de espirituosidade e de carisma. Mas os dois jogam no mesmo time, o que faz com que o público seja completamente arrebatado durante as duas horas de espetáculo.

Foto: Tatyane Larrubia (Amora Imagem)

Acompanhados de Martin Mendonça (guitarra), Daniel Weksler (bateria), Felipe Cambraia (baixo), Alex Veley (teclados) e Paulo Kishimoto (lap steel e percussão), Pitty e Nando abusam da elegância no trato dos sentimentos – seja pela sofisticação das melodias, pelo delicado silêncio que eventualmente escapa, pela valorização da arte. Com criação de Pitty e Nando Reis, direção musical de Pitty e Paulo Kishimoto, e direção geral e artística de Pitty, As Minhas, As Suas e As Nossas apresenta um show que parece ter nascido da necessidade de dizer. De compartilhar. Quando verdadeira, a música não encontra quem a detenha. Se lhe negamos o canto pela boca, ela fala pelas mãos, pelos olhos, pelos poros, pela mente. Inclusive, no momento em que escrevo este texto, “Os Cegos do Castelo” ecoa repetidamente na minha cabeça. Na voz de Pitty, pois foi assim que ela se fixou em mim após os shows. Isso significa que a música de Nando, cantada por Pitty – e o contrário, como em “Na Sua Estante”, “Temporal”, entre outros exemplos – são palavras que merecem ser celebradas por todos nós. O “Nossas”, no título da turnê, pode ser em relação às composições dos dois, mas o que senti no Araújo Vianna é que este é, de fato, um show nosso. De celebração. De recordação. De passar de novo pelo coração.

Se a especificidade artística de Pitty e Nando Reis já transbordava nas carreiras solos de ambos, juntos eles se tornam um desses felizes encontros da natureza (com muito trabalho envolvido), como a história do rock é beneficiada aqui e acolá. Se por conexão cósmica ou ambiente, se por simples intuição na hora de escolher o repertório, se por pura sabedoria pragmática, a verdade é que a graça (e talvez o sentido?) da arte é essa: reconhecer-se virgem. Nando aprendendo a fazer uma performance sem tocar violão; Pitty percebendo que não conseguia mexer no arranjo de “Na Sua Estante” e passando o bastão para Nando a modificar. Com soberba não se aprende nada – e é isso que a gente também aprende ao ver dois artistas entregues ao que de melhor eles sabem fazer, mas fazendo de forma singular e inédita.

Não espere ver a performance solo de Pitty neste show. Não é um Matriz 3.0. E também não espere ver a performance solo de Nando – não é um dos inúmeros projetos que ele tem na estrada. PittyNando é completamente diferente. Vá ver e depois me conte o que achou 😉

Faz muito tempo que o rock deixou de se restringir exclusivamente à sua má fama: drogas, farra, sexo e amnésia. E mais: não se restringe à péssima fama reacionária que se instalou por aí. O rock foi amplificado e virou adjetivo. Não é só um gênero musical, não simboliza tão-somente melodias específicas, cortes de cabelo, vestuário e hábitos lidos como toscos. Rock é liberdade – Raul Seixas já havia nos orientado sobre isso no thelêmico refrão “faz o que tu queres, pois é tudo da lei”. O rock, primo-irmão do blues, não se acomoda prontamente dentro de nós. Ele não é indulgente. O rock é assimilado através da pele. Atiça-excita-bagunça e provoca reações físicas diversas. Desperta um bicho-tarado-faminto, um profanador, um subversivo.

Foto: Gabriela Baum (Amora Imagem)

Na noite de 17 de fevereiro, quinta-feira passada, Pitty fez um show de rock no Araújo Vianna. O primeiro dela no auditório, e o segundo após a encenação do fim do mundo. Um público saudoso a recebeu sob fortes gritos e aplausos, e o show se desenrolou da melhor – e mais pesada – forma possível noite adentro.

Matriz 3.0 é um show urgente. Embora ainda exista uma inevitável hesitação em todos nós, o vigor da presença física escancara que Pitty, Martin, Daniel e Kishimoto saíram do isolamento com gana, tesão, pressa e prontos para o palco. Martin até comentou em uma rede social que é como andar de bicicleta. Nesse caso, sem rodinhas. Pitty as tirou há muito tempo. Mesmo após dois anos sem tocar em Porto Alegre, a artista segue tendo o público na palma da mão. Pitty conduz, envolve, diverte e se diverte, até quando o PA morre em consequência de uma versão de “Watermelon Sugar”, do Harry Styles.

Em um momento em que estamos saindo de tempos gélidos e isolados, Matriz 3.0 celebra o lado quente da vida – inclusive em suas cores incendiárias, pendendo especialmente para o vermelho: sangue, veias, coração, pimenta, calor, sedução, vinho, cereja, morango, melancia. Vermelho, a cor que pulsa. E são os pulsantes que fazem a diferença. Watermelon sugar high total.

“Tempo de Brincar”, “Diamante” e “Na Pele” (com uma emocionante homenagem à eterna Elza Soares), embora sonoramente muito diferentes – ou talvez exatamente por isso –, reforçam aquilo que a gente sabe, mas que volta e meia alguém choraminga: sim, a Pitty ainda é rock. Pasmem. Pitty é roqueira pra caralho cantando música pop. Roqueira pra caralho cantando rocksteady. Roqueira pra caralho se misturar samba com jazz – ou com o que ela quiser. Ser roqueira, nesse caso, é assumir um compromisso não necessariamente com o gênero musical, mas em aceitar – e buscar! – mudanças, abdicando de uma comodidade musical, com autoconfiança para ser quem verdadeiramente ela quer ser naquele momento, esteja no palco ou não, no estúdio ou não, com público ou não. Rock pra caralho.

Exagero? Pode ser. Mas sabem como é: quando o assunto é show de rock, eu não me economizo.

Na noite da última quinta-feira, 25 de fevereiro, Martin Mendonça fez uma ocupação no canal da Pitty na Twitch. O guitarrista contou histórias, tocou e comentou as faixas do álbum Matriz. Ao final, sugeriu que quem tivesse curtido o papo, ouvisse novamente o álbum e prestasse atenção em tudo que ele havia contado. E foi o que eu fiz. Na verdade, mais do que isso: voltei ao Matriz – Arquivos Completos, DVD duplo que registra o mais recente álbum da cantora, com o show que rolou da Concha Acústica, em Salvador, com direção de Daniel Ferro, o filme MATRIZ.doc, dirigido por Otavio Sousa, além de extras, making of, Videotrackz e videoclipes.

Martin reforçou o que Pitty vem falando desde que lançou o álbum: Matriz é um divisor de águas. É um disco que utiliza diferentes referências musicais, que foi gravado em diferentes estúdios, em diferentes estados, com diferentes músicos, e tudo isso converge para que ele seja, em suma, um disco de rock, pois essa é a essência da artista.

Gosto muito de como Pitty trata com leveza e segurança a questão sempre levantada sobre se “é rock ou não é mais rock”, abandonando a normatividade e a estagnação das definições de gêneros musicais. Ainda mais quando o Matriz – em especial o doc – deixa evidente a relação entre música e sociedade, mostrando que há um diálogo inerente entre formações musicais e formações identitárias. A música é fruto de um contexto cultural, social, econômico, afetivo e político, e é a partir daí que a gente consegue observar como a música pode ser didática para pensarmos as identidades, abrindo novas perspectivas para enxergarmos as características que extrapolam as barreiras da sonoridade. A música é um elo, como o próprio Russo Passapusso comenta; um elo que conecta o rock, o reggae, o samba de recôncavo, a raiz, o regional; oportuniza a discussão sobre posições, privilégios, comunidades: um elo que tem a finalidade de falar, de se expressar.

O caminho que Pitty percorre entre Lazzo Matumbi (seus elementos musicais e culturais), Larissa Luz e BaianaSystem (a nova cena e os novos ritmos), Peu Sousa (o afeto, fazendo muito mais do que uma homenagem) e Teago Oliveira (que vem da linha evolutiva de grandes compositores como Fábio Cascadura e Ronei Jorge) é de alguém que busca se (re)conhecer; e é na memória que encontra subsídio para entender quem ela é, como ela é, de onde ela é e por que ela é.

Vale apontar algo que está bastante claro em MATRIZ.doc: memória é diferente de nostalgia. Pitty não vive em um tempo de recordação total, não apresenta um tom saudosista ao olhar para o passado. Muito pelo contrário: com o apoio da memória, busca uma constituição identitária que destaca os vínculos entre o passado, o presente e o futuro, algo que é comentado pela artista em vários trechos do filme. A montagem do filme, aliás, é excelente ao reconstruir toda essa história, pois é ali, através das interações que ocorrem nas ruas, nos bares, com outras pessoas e com outros sons, que conseguimos entender como o Matriz se tornou o Matriz.

Matriz – Arquivos Completos (divulgação)

Em relação ao show, me perco dentro das minhas próprias emoções e não sei muito bem o que escrever. Nada substitui a experiência de um show ao vivo, mas, por ora, a única coisa que podemos fazer é revisitar essas experiências através de shows gravados. Um show também transmite memórias e manifesta o entendimento de identidade de um grupo. As performances, como salientam pesquisadoras como Diana Taylor, transmitem conhecimento. A partir do momento em que me coloco como ator social neste grupo, trago toda a minha carga pessoal, que se mistura com minhas referências de escrita; assim, a performance de Pitty funciona também como um modo de tentar conhecê-la profundamente – ela nunca foi somente um objeto de análise neste blog; é muito mais intenso que isso. Tudo que escrevo sobre ela tem um pouco (muito?) do eu sou, do que eu sinto e do que eu faço.

Em função disso, o Matriz não confunde somente os tempos da artista, mas também os meus e os de muitos/as fãs que a acompanham desde o início de sua carreira. Ele nos leva para um lugar que faz com que tenhamos vontade de investigar e compreender aquilo que habita em todos/as nós. Enquanto artista, Pitty sempre questionou mais do que respondeu. Usa a dúvida como benefício; pesquisa antes de afirmar. Faz o movimento de entrada e de saída de campo – o mesmo que a gente faz quando precisa se afastar de um objeto para renovar um olhar impregnado de nós mesmos. O Matriz – Arquivos Completos mexe muito comigo. Acho que por isso eu me enrolei tanto para escrever sobre ele. Aparentemente, eu precisava de um empurrãozinho do Martin 🙂

Agosto veio com tudo para a cantora Pitty: um mês inteiro celebrando os 15 anos do Anacrônico, seu segundo disco, lançado em 21 de agosto de 2005. Como escrevi sobre os 15 anos do Admirável Chip Novo, achei que seria um interessante exercício de memória escrever também sobre os 15 anos do Anacrônico.

Três dias antes do lançamento, no dia 18, eu completava 17 anos; então um disco novo da minha cantora favorita foi um bom presente de aniversário. Em abril daquele ano, vi um show em Santa Maria, na região central do Rio Grande do Sul, onde Pitty tocou “Brinquedo Torto” e talvez “A Saideira” e/ou “Anacrônico” (“Brinquedo Torto” é a única que tenho certeza, pois já sabia de cor e porque segue sendo uma das minhas preferidas do disco); uma versão muito mal gravada de algum show circulava na internet, provavelmente na comunidade Viciados em MP3 da Pitty, no Orkut, onde tinha de tudo – menos os discos oficiais, regra primordial da Comunidade. Lá eu também devo ter feito o download de “Déjà Vu”, “Claritin D” (que virou “Aahhh…!”) e “Seu Mestre Mandou”, todos áudios extraídos de algum show, e “O Muro”, só para citar algumas.

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Pôster do disco, que veio em algum caderno (Acervo pessoal)

Depois, vi o show de lançamento da turnê em Chapecó, no oeste de Santa Catarina, porque arrumei uma carona até a cidade, o que acabou me fazendo abrir mão da viagem para o show em Porto Alegre. Foi a pior troca que eu poderia fazer, pois quase não tenho lembranças deste show – o que me leva a crer que muito das nossas memórias se associam aos locais onde estas ocorrem; no caso, pra mim, o bar Opinião, palco da maioria dos shows que vi da Pitty. Por exemplo, lembro perfeitamente de outro show, ainda da turnê Anacrônico, que vi no Opinião, em 2006. Essas viagens me renderam um prêmio: na época, a Na Moral, antiga produtora que cuidava da carreira da cantora, fez uma promoção chamada “Mochileiros Pitty”, que premiava pessoas com as melhores histórias de viagens para shows. Ganhei uma mochila vermelha do Anacrônico, que usei até desmanchar, literalmente. Levei várias vezes em um sapateiro para consertar, até que ela se despediu deste plano, sem registros fotográficos, mas com muitas histórias que ficam para outro momento – inclusive a que eu contei para ganhar a mochila.

2005 foi um ano movimentado na banda: a saída de Peu Sousa e a entrada de Martin Mendonça, vindo da excelente Cascadura, deu uma encorpada nas guitarras do segundo disco. No primeiro show que eu vi com o Martin (aquele em Santa Maria, ainda do ACN, mas já com spoilers do Anacrônico), ele tocava praticamente o show inteiro com uma Fender Stratocaster amarela/branca-encardida, muito diferente das performances que eu tinha visto com Peu, onde ele trocava de guitarra várias vezes ao longo do show. A guitarra amarela/branca-encardida de Martin, de onde saíram muitos riffs que até hoje ecoam em nossas cabeças (e o solo de “No Escuro”, que ele gravou bêbado após uma desvairada epopeia em um brinquedo que te derruba em um colchão), aparece no Sessões Anacrônicas, que documenta as gravações do disco e vai ser disponibilizado em breve. Se não me engano (me corrijam se eu estiver errada), o lançamento do Sessões Anacrônicas foi no formato DualDisc, onde de um lado tínhamos o áudio do disco e do outro lado o documentário, o clipe da faixa-título e uma galeria de fotos. Ganhei o DualDisc de presente de formatura do Ensino Médio, onde entrei justamente com “Anacrônico”, que naquele ano continha o riff de introdução MAIS AFUDÊ da história das entradas em solenidades de formaturas do Ensino Médio.

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Recortes e revistas sobre a divulgação do disco (Acervo pessoal)

Ainda contextualizando esse período, em 2005 Pitty foi indicada a inúmeros prêmios, vencendo alguns dos mais importantes, especialmente no Prêmio Multishow de Música Brasileira e no VMB. O Pitty-List começava a se expandir, e consequentemente outras listas e fã-clubes foram surgindo e organizando a galera para os mutirões de votação. Desses prêmios de 2005 como, por exemplo, melhor cantora e vocalista da banda dos sonhos, talvez o de Ídolo MTV tenha sido o mais marcante. Lembro como se fosse hoje do discurso e do impacto no público que estava se formando (para acompanhar a carreira de um artista e como indivíduo, mesmo). Se trazido para os dias de hoje, o discurso ajuda a refletir sobre a cultura do cancelamento de artistas e a quebra as projeções nos relacionamentos entre fã e ídolo. Não vou me estender nesta observação porque tenho em mente outro texto sobre a arte ser superior ao artista e o cancelamento (principalmente retroativo) na era digital, mas vejam o discurso e pensem quais discussões ele pode incitar e como podemos reformular a visão que temos sobre nossos ídolos (e pra essas discussões, me chamem!).

EM 2020, BABY STREAMER E FEITICEIRA

Uma pandemia afetou o mundo inteiro e trouxe à tona a dependência que temos da cultura. Obras literárias, musicais, televisivas: recorremos a todo tipo de arte para atravessar este período de maneira mais confortável – muitas vezes, fugindo momentaneamente da realidade. Junto com isso, nos deparamos com um sistema frágil – falando aqui somente da área do entretenimento – e que não oferece auxílio aos artistas (e suas equipes) que não estão podendo exercer a atividade de onde tiravam seu principal sustento: o show ao vivo. A despeito dessa problemática, que envolve assunto demais para tratar neste post, as lives explodem como uma alternativa à aglomeração presencial; num primeiro momento, fujo de todas, atordoada com tanta informação e já exausta do mundo-tela que viria pela frente. Depois, me amanso e aceito que é preciso trabalhar com o que se tem, além de aos poucos ir escolhendo por quais canais e com quem, de fato, é proveitoso interagir.

Um desses canais foi a Twitch, plataforma de streaming da Amazon, para onde vários músicos migraram durante a pandemia. Antes habitado especialmente por gamers, a Twich vem ganhando artistas e público que até então estavam no YouTube e no Instagram, principalmente.

A Pitty foi uma dessas, que está lá há pouco mais de três meses, e já contabiliza quase 34 mil seguidores. No texto sobre os 15 anos do ACN, comentei sobre sua forma de contato com o público, passando por todas as possibilidades de interação (lista de discussão, flogs etc), fortalecendo a rede criada em 2003 e estimulando o pensamento autônomo de sua audiência, focando no que mais importa: a música. Seu canal na Twitch vem para dar mais um passo nessa direção: mais do que lives musicais, a cantora apresenta uma programação semanal onde debate diversos assuntos relacionados especialmente à arte, mas também joga conversa fora, num esquema audiovisual do Boteco que havia em seu site.

Falando em boteco, deixo aqui um post de exatos 15 anos atrás, onde Pitty fala sobre o trabalho de divulgação do álbum. Massa reler isso, não? E tem história nessa história…

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Print tosco do Boteco em 12 de agosto de 2005


AGOSTO(SO)

E a programação especial de comemoração do Anacrônico começa amanhã, em um papo com a fodástica cantora e compositora Josyara (procure conhecer!). Por aqui, estou bastante empolgada para acompanhar tudo o que vai rolar. No dia 18, ao invés de um Zoom Party, aparentemente vou ter que fazer uma Twitch Party, já que uma conversa sobre o Sessões Anacrônicas é imperdível. Abaixo, a programação completa:

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Programação de agosto no canal da Pitty na Twitch

Bom, por hoje é isso. Feliz aniversário, Anacrônico! ❤
Nos vemos novamente no aniversário de 15 anos do {Des}Concerto ao Vivo 😉

PS: Estou sem meu HD externo, por isso não postei fotos dos shows que comentei. Também não estou com meu DualDisc, por isso não tenho certeza do conteúdo exato que tem nele. Esses recortes, pôsteres e crachá (que ganhei de alguém da produção no show em Santa Maria) são coisas que achei na casa dos meus pais.

“Não escreve sob o império da emoção.
Deixa-a morrer, depois a revive.
Se és capaz de revivê-la tal qual como a viveste,
chegaste, na arte, à metade do caminho”.
(Horacio Quiroga em Decálogo do perfeito contista).

Eu nunca escrevo sob o império da emoção após um show. Levo em média uns 4 ou 5 dias para compreender todos os sentimentos despertados, e só então me sento, o revivo, e escrevo. Esse é meu modus operandi, basicamente.

Mas dessa vez eu resolvi testar uma coisa diferente; achei que a data – dia do compositor brasileiro e aniversário da Pitty – pedia um esforço da minha parte. Se vai dar certo, eu não sei, então vamos ver o que vai sair daqui.

Bem, eu escrevo sobre shows da Pitty há quase 10 anos; e eu vejo shows da Pitty há 15 anos. Às vezes, penso que não tenho mais nada para escrever sobre, embora eu precise externar o que eu sinto sobre, se é que isso faz algum sentido. Várias pessoas ainda me perguntam por que eu assisto ao “mesmo” show há mais de uma década. Pra responder, recorro ao que escreveu Jorginho Cardoso Filho, em 2011, sobre as formas de apreender a experiência estética, exemplificando a efemeridade através dos encontros entre um homem e um rio: quando se percebe que determinado encontro não se repetirá, abre-se a possibilidade de fruir a particularidade de cada encontro de maneira única e intensa. É mais ou menos dessa forma que vejo meu encontro, enquanto público, com a Pitty em um palco: ele não se repete, porque é excepcional e efêmero. E o encontro com o show de lançamento do Matriz não seria diferente.

MATRIZ 2.0

No sábado, dia 5, Pitty apresentou seu novo disco, recentemente indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa, no Pepsi on Stage, em Porto Alegre. Após uma playlist impecável com o melhor do dancehall, dub, early reggae, rocksteady y otras cositas más feita pela cantora especialmente para os shows, o som sobe com “Legalize It”, do Peter Tosh, avisando que o show está para começar.

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Momento “quartinho em Salvador”, onde a artista apresenta o embrião de algumas músicas, como “Teto de Vidro” e “O Lobo”. Fotos: Carol Govari

De cara, somos apresentados ao álbum Matriz por meio do vídeo de “Bicho Solto”, feito por Otavio Sousa e com imagens captadas por Alisson Louback, enquanto a banda entra no palco. Pitty abre o show com “Ninguém é de Ninguém”, seu single mais recente – e uma das músicas preferidas da galera –, enquanto somos engolidos pela projeção do videoclipe.

O Matriz 2.0, em Porto Alegre, apresentou nove (contando “Bicho Solto”, no começo) das 13 faixas do disco novo. Matriz, como muitos já sabem, aconteceu de forma orgânica, na estrada, e Pitty recupera e articula diferentes referências e gêneros musicais ao longo do disco. Me impressiona, muito, como Pitty fez tudo isso funcionar no palco. Sempre pensei que “Redimir”, uma das minhas faixas preferidas, não funcionaria ao vivo. Mas ela funciona tanto – mas tanto! – que sigo até agora impactada, com aquela batida no meio do meu peito e as palmas ecoando na minha cabeça. Se fecho os olhos, vejo Pitty ali na frente do monitor do Martin, com aquele foco de luz a iluminando, o resto do palco todo escuro. Um absurdo. Hipnotizante. “Bahia Blues”, digna de uma peregrinação de fãs por Salvador, é outra faixa que no disco eu acho incrível, mas também achava que poderia ficar meio linear ao vivo, e preciso dizer: eu nunca me senti tão feliz por estar completamente enganada. “Noite Inteira” é a voz da resistência, entoada pelo público no maior clima de união; e “Te Conecta”, que apareceu na turnê anterior dando pistas de onde Pitty poderia chegar, faz infinitamente mais sentido, agora, nesse show.

“Roda”, com participação de Russo Passapusso e Beto Barreto, do BaianaSystem, foi o momento em que a banda passou de trator em cima da galera. E eu sei que parece contraditório dizer que a banda “passou de trator” em cima do público, sendo que foi, talvez, o momento mais explosivo do show, mas é a única forma de expressar o que senti naquele momento.

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“Motor”, uma das partes mais envolventes do show

“Motor” é a parte que chega ~dói aqui dentro. Linda, sensível, tri bem pensada entre “Na Sua Estante” e “Redimir”. Na verdade, tudo nesse show transparece que foi muito bem pensado. Há uma história sendo contada, com retomadas ocasionais ao passado, como o momento “quartinho de Salvador”, mas com uma narrativa muito bem amarrada e em direção ao futuro, vide “Submersa”, que lindamente faz com que a gente saia daquele quartinho e retorne a 2019. Matriz 2.0 tem um show eficaz, com quadros cênicos, onde a plateia não enxerga os andaimes da construção: é coeso, coerente. Há uma progressão que começa em “Bicho Solto” e termina em “Serpente”, no bis; um caminho por onde Pitty abusa de toda a sua competência pra manter o público imerso naquilo que ela oferece de melhor: uma performance ao vivo.

Além disso, a artista mostra um baita trabalho braçal e está presente em 100% da noite que entrega: da playlist que toca antes do show, passando pelo roteiro cenográfico, projeções, iluminação, direção; ou seja, tudo ali reflete seus posicionamentos e colabora para que o show aconteça de forma catártica.

PROJETO PALCO ABERTO

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Alice Kranen, a artista convidada para o Palco Aberto de POA

Um dos diferenciais da turnê Matriz é o Palco Aberto, projeto onde bandas locais abrem o show de Pitty. Parceria da cantora com a TNT Energy Drink, o projeto tem curadoria de Tony Aiex, editor-chefe do site TMDQA, e acaba dando espaço para que novos artistas – todos com projetos autorais – sejam conhecidos por um público maior, fomentando a cena local. Já passaram pelo projeto Flaira Ferro (PE), Mulamba (PR), Violet Soda (SP) e Ouse (CE). Em Porto Alegre, a artista convidada foi Alice Kranen, uma cantora e compositora de apenas 14 anos, que traz bastante influência de blues, folk e rock em suas composições. Visivelmente emocionada, Alice conduziu muito bem seu show, tocando violão em todas as músicas, e apresentou os singles “Travas em Portas” e “Talvez”, entre canções próprias e covers, como “Zombie”, do The Cranberries.

O projeto Palco Aberto é uma das coisas mais legais que estão acontecendo na música, atualmente. Pitty, que veio do underground, faz uma ponte entre o cenário independente e o mainstream, pois sabe como é importante fornecer espaços para que novos talentos mostrem seus trabalhos. É uma oportunidade que certamente marca a carreira – e a vida – desses novos artistas.

Outras informações sobre o projeto Palco Aberto, que ainda vai rolar em mais 16 cidades, você encontra clicando aqui.

7 DE OUTUBRO

Como comentado no início deste texto, hoje, além de ser o dia do compositor brasileiro, é aniversário da Pitty. Sou péssima com demonstrações públicas de afeto – apesar de achar que esse texto está beeeem claro –, mas uso esse finalzinho pra parabenizar a minha compositora brasileira preferida, uma das artistas mais gentis que eu tenho a sorte de conhecer, e que mesmo depois de 15 anos segue me instigando e me fazendo voltar pra ver o que ela vai aprontar no palco. Feliz ano novo, Pitty ❤