Quando eu cheguei na Olelê Music para conversar com o Leandro “Lelê” Bortholacci sobre ‘qualquer coisa que ele quisesse me contar sobre a cena musical de Porto Alegre’, já que eu estava procurando algo que me interessasse para pesquisar, jamais imaginei que chegaríamos ao Costa do Marfim. Comentei, sem pretensão alguma, que eu era integrante de um projeto de pesquisa que fazia um mapeamento das cenas musicais de Porto Alegre e Manchester, e então ele me mostrou algumas músicas do novo disco da Cachorro Grande (uns quatro meses antes do lançamento), o qual tinha “uma pegada Manchester”, como ele mesmo disse ao dar play nas músicas.
Este parágrafo acima inicia o artigo Costa do Marfim: a repaginação da banda Cachorro Grande, publicado nos anais do II Congresso Internacional de Estudos do Rock, em 2015. Foi nesse escritório na Lopo Gonçalves, em Porto Alegre, que eu conheci o Lelê. E que também encontrei o meu objeto de dissertação de mestrado. Muito tempo se passou, defendi minha dissertação – que óbvio, foi sobre a Cachorro Grande –, a transformei em um livro, fiz um doutorado e segui meu caminho na área acadêmica. (Nunca pensei em fazer nada fora da academia – tenho este blog por pura necessidade de escrever sobre shows, porque é escrevendo sobre os shows que eu os entendo. Sei lá por que eu preciso entender um show. Se eu não escrevo, parece que o show fica entalado dentro de mim. Inclusive, sem shows, esse blog ficou entregue às moscas, com um textinho ou outro.)
Ainda durante o doutorado, recebi um convite do Lelê para colocar um projeto na rua. O nome? EU QUERO SER SEU AMIGO DE NOVO. Ele explicou a ideia, eu fiquei tri empolgada. O projeto foi tomando diferentes formas, ficou um tempo na gaveta, até que, um dia, durante a primeira temporada da pandemia, recebi uma ligação dele perguntando se eu topava fazer um podcast sobre a história da Olelê, mais ou menos na mesma pegada do que já estávamos conversando. Imediatamente respondi “CLARO!” – afinal, escrevo sobre todas as bandas que a Olelê produziu durante suas quase duas décadas de atuação no mercado. Na hora, não pensei num detalhe: eu escrevo sobre as bandas, eu não falo sobre as bandas. Minha comunicação é totalmente através da escrita, e por mais que eu tenha facilidade em dar aulas, palestras, e apresentar trabalhos, é totalmente diferente de gravar um podcast. Mas tudo bem, né? Afinal, eu já tinha tido algumas experiências na extinta rádio Unisinos, inclusive apresentando programa (o Divã Pop, que depois virou o podcast do Cultpop), então beleza, tranquilo, vamos lá.
Pois bem: fomos na Cubo Filmes, produtora audiovisual responsável pelas gravações do podcast, e aí eu descobri que o programa seria gravado e veiculado também em vídeo, nesses formatos mesacast. Travei, óbvio. Expliquei para o Lelê sobre o meu desconforto em frente às câmeras (não à toa este blog se chama backstage; holofotes – especialmente se forem três, gigantes, me iluminando – me deixam mais introvertida do que eu já sou) e ele foi muito paciente nesse processo. Não que tenha melhorado muito, mas aprendi a lidar com aquela luz toda. Depois de algumas gravações eu consegui fingir naturalidade e até olhar para a câmera. Um avanço e tanto. Mesmo que eu tope fazer tudo e qualquer coisa que envolva música, me peguei pensando se eu era a pessoa indicada pra apresentar o programa com o Lelê. Acho que o Lelê confia no meu trabalho porque sacou um negócio que eu demorei umas oito gravações para sacar: eu sou fã, jornalista e pesquisadora de todas essas bandas – ou seja, vou do afetivo ao profissional, vi milhares de shows, sei todos os discos de trás pra frente, tenho muita proximidade com os músicos, mas também consigo ter um distanciamento na hora de escrever (ops); todas essas instâncias (afetiva, jornalística e científica) são meio misturadas, mas funcionam muito bem.
Além disso, somos de gerações diferentes, temos experiências diferentes, e consequentemente temos visões diferentes sobre essas décadas de história. E é sobre isso que o Eu Quero Ser Seu Amigo de Novovai falar: histórias. Causos, tretas, separações, reconciliações, tudo sendo contado por quem vivenciou esses acontecimentos. Eu ali, ouvindo, cavocando nos arquivos do Lelê – porque, sim, peguei todo o arquivo físico dele para digitalizar, e, para quem pesquisa memória, isso é um parque de diversões! –, relembrando coisas antigas e descobrindo muuuuitas coisas novas, também.
Foto: Tatyane Larrubia / Amora Imagem
O programa vai estrear em março, na Cubo Play, plataforma da Cubo Filmes, e também nas principais plataformas de streaming.
Agosto veio com tudo para a cantora Pitty: um mês inteiro celebrando os 15 anos do Anacrônico, seu segundo disco, lançado em 21 de agosto de 2005. Como escrevi sobre os 15 anos do Admirável Chip Novo, achei que seria um interessante exercício de memória escrever também sobre os 15 anos do Anacrônico.
Três dias antes do lançamento, no dia 18, eu completava 17 anos; então um disco novo da minha cantora favorita foi um bom presente de aniversário. Em abril daquele ano, vi um show em Santa Maria, na região central do Rio Grande do Sul, onde Pitty tocou “Brinquedo Torto” e talvez “A Saideira” e/ou “Anacrônico” (“Brinquedo Torto” é a única que tenho certeza, pois já sabia de cor e porque segue sendo uma das minhas preferidas do disco); uma versão muito mal gravada de algum show circulava na internet, provavelmente na comunidade Viciados em MP3 da Pitty, no Orkut, onde tinha de tudo – menos os discos oficiais, regra primordial da Comunidade. Lá eu também devo ter feito o download de “Déjà Vu”, “Claritin D” (que virou “Aahhh…!”) e “Seu Mestre Mandou”, todos áudios extraídos de algum show, e “O Muro”, só para citar algumas.
Pôster do disco, que veio em algum caderno (Acervo pessoal)
Depois, vi o show de lançamento da turnê em Chapecó, no oeste de Santa Catarina, porque arrumei uma carona até a cidade, o que acabou me fazendo abrir mão da viagem para o show em Porto Alegre. Foi a pior troca que eu poderia fazer, pois quase não tenho lembranças deste show – o que me leva a crer que muito das nossas memórias se associam aos locais onde estas ocorrem; no caso, pra mim, o bar Opinião, palco da maioria dos shows que vi da Pitty. Por exemplo, lembro perfeitamente de outro show, ainda da turnê Anacrônico, que vi no Opinião, em 2006. Essas viagens me renderam um prêmio: na época, a Na Moral, antiga produtora que cuidava da carreira da cantora, fez uma promoção chamada “Mochileiros Pitty”, que premiava pessoas com as melhores histórias de viagens para shows. Ganhei uma mochila vermelha do Anacrônico, que usei até desmanchar, literalmente. Levei várias vezes em um sapateiro para consertar, até que ela se despediu deste plano, sem registros fotográficos, mas com muitas histórias que ficam para outro momento – inclusive a que eu contei para ganhar a mochila.
2005 foi um ano movimentado na banda: a saída de Peu Sousa e a entrada de Martin Mendonça, vindo da excelente Cascadura, deu uma encorpada nas guitarras do segundo disco. No primeiro show que eu vi com o Martin (aquele em Santa Maria, ainda do ACN, mas já com spoilers do Anacrônico), ele tocava praticamente o show inteiro com uma Fender Stratocaster amarela/branca-encardida, muito diferente das performances que eu tinha visto com Peu, onde ele trocava de guitarra várias vezes ao longo do show. A guitarra amarela/branca-encardida de Martin, de onde saíram muitos riffs que até hoje ecoam em nossas cabeças (e o solo de “No Escuro”, que ele gravou bêbado após uma desvairada epopeia em um brinquedo que te derruba em um colchão), aparece no Sessões Anacrônicas, que documenta as gravações do disco e vai ser disponibilizado em breve. Se não me engano (me corrijam se eu estiver errada), o lançamento do Sessões Anacrônicas foi no formato DualDisc, onde de um lado tínhamos o áudio do disco e do outro lado o documentário, o clipe da faixa-título e uma galeria de fotos. Ganhei o DualDisc de presente de formatura do Ensino Médio, onde entrei justamente com “Anacrônico”, que naquele ano continha o riff de introdução MAIS AFUDÊ da história das entradas em solenidades de formaturas do Ensino Médio.
Recortes e revistas sobre a divulgação do disco (Acervo pessoal)
Ainda contextualizando esse período, em 2005 Pitty foi indicada a inúmeros prêmios, vencendo alguns dos mais importantes, especialmente no Prêmio Multishow de Música Brasileira e no VMB. O Pitty-List começava a se expandir, e consequentemente outras listas e fã-clubes foram surgindo e organizando a galera para os mutirões de votação. Desses prêmios de 2005 como, por exemplo, melhor cantora e vocalista da banda dos sonhos, talvez o de Ídolo MTV tenha sido o mais marcante. Lembro como se fosse hoje do discurso e do impacto no público que estava se formando (para acompanhar a carreira de um artista e como indivíduo, mesmo). Se trazido para os dias de hoje, o discurso ajuda a refletir sobre a cultura do cancelamento de artistas e a quebra as projeções nos relacionamentos entre fã e ídolo. Não vou me estender nesta observação porque tenho em mente outro texto sobre a arte ser superior ao artista e o cancelamento (principalmente retroativo) na era digital, mas vejam o discurso e pensem quais discussões ele pode incitar e como podemos reformular a visão que temos sobre nossos ídolos (e pra essas discussões, me chamem!).
EM 2020, BABY STREAMER E FEITICEIRA
Uma pandemia afetou o mundo inteiro e trouxe à tona a dependência que temos da cultura. Obras literárias, musicais, televisivas: recorremos a todo tipo de arte para atravessar este período de maneira mais confortável – muitas vezes, fugindo momentaneamente da realidade. Junto com isso, nos deparamos com um sistema frágil – falando aqui somente da área do entretenimento – e que não oferece auxílio aos artistas (e suas equipes) que não estão podendo exercer a atividade de onde tiravam seu principal sustento: o show ao vivo. A despeito dessa problemática, que envolve assunto demais para tratar neste post, as lives explodem como uma alternativa à aglomeração presencial; num primeiro momento, fujo de todas, atordoada com tanta informação e já exausta do mundo-tela que viria pela frente. Depois, me amanso e aceito que é preciso trabalhar com o que se tem, além de aos poucos ir escolhendo por quais canais e com quem, de fato, é proveitoso interagir.
Um desses canais foi a Twitch, plataforma de streaming da Amazon, para onde vários músicos migraram durante a pandemia. Antes habitado especialmente por gamers, a Twich vem ganhando artistas e público que até então estavam no YouTube e no Instagram, principalmente.
A Pitty foi uma dessas, que está lá há pouco mais de três meses, e já contabiliza quase 34 mil seguidores. No texto sobre os 15 anos do ACN, comentei sobre sua forma de contato com o público, passando por todas as possibilidades de interação (lista de discussão, flogs etc), fortalecendo a rede criada em 2003 e estimulando o pensamento autônomo de sua audiência, focando no que mais importa: a música. Seu canal na Twitch vem para dar mais um passo nessa direção: mais do que lives musicais, a cantora apresenta uma programação semanal onde debate diversos assuntos relacionados especialmente à arte, mas também joga conversa fora, num esquema audiovisual do Boteco que havia em seu site.
Falando em boteco, deixo aqui um post de exatos 15 anos atrás, onde Pitty fala sobre o trabalho de divulgação do álbum. Massa reler isso, não? E tem história nessa história…
Print tosco do Boteco em 12 de agosto de 2005
AGOSTO(SO)
E a programação especial de comemoração do Anacrônico começa amanhã, em um papo com a fodástica cantora e compositora Josyara (procure conhecer!). Por aqui, estou bastante empolgada para acompanhar tudo o que vai rolar. No dia 18, ao invés de um Zoom Party, aparentemente vou ter que fazer uma Twitch Party, já que uma conversa sobre o Sessões Anacrônicas é imperdível. Abaixo, a programação completa:
Programação de agosto no canal da Pitty na Twitch
Bom, por hoje é isso. Feliz aniversário, Anacrônico! ❤
Nos vemos novamente no aniversário de 15 anos do {Des}Concerto ao Vivo 😉
…
PS: Estou sem meu HD externo, por isso não postei fotos dos shows que comentei. Também não estou com meu DualDisc, por isso não tenho certeza do conteúdo exato que tem nele. Esses recortes, pôsteres e crachá (que ganhei de alguém da produção no show em Santa Maria) são coisas que achei na casa dos meus pais.
“Não escreve sob o império da emoção.
Deixa-a morrer, depois a revive.
Se és capaz de revivê-la tal qual como a viveste,
chegaste, na arte, à metade do caminho”.
(Horacio Quiroga em Decálogo do perfeito contista).
Eu nunca escrevo sob o império da emoção após um show. Levo em média uns 4 ou 5 dias para compreender todos os sentimentos despertados, e só então me sento, o revivo, e escrevo. Esse é meu modus operandi, basicamente.
Mas dessa vez eu resolvi testar uma coisa diferente; achei que a data – dia do compositor brasileiro e aniversário da Pitty – pedia um esforço da minha parte. Se vai dar certo, eu não sei, então vamos ver o que vai sair daqui.
Bem, eu escrevo sobre shows da Pitty há quase 10 anos; e eu vejo shows da Pitty há 15 anos. Às vezes, penso que não tenho mais nada para escrever sobre, embora eu precise externar o que eu sinto sobre, se é que isso faz algum sentido. Várias pessoas ainda me perguntam por que eu assisto ao “mesmo” show há mais de uma década. Pra responder, recorro ao que escreveu Jorginho Cardoso Filho, em 2011, sobre as formas de apreender a experiência estética, exemplificando a efemeridade através dos encontros entre um homem e um rio: quando se percebe que determinado encontro não se repetirá, abre-se a possibilidade de fruir a particularidade de cada encontro de maneira única e intensa. É mais ou menos dessa forma que vejo meu encontro, enquanto público, com a Pitty em um palco: ele não se repete, porque é excepcional e efêmero. E o encontro com o show de lançamento do Matriz não seria diferente.
MATRIZ 2.0
No sábado, dia 5, Pitty apresentou seu novo disco, recentemente indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa, no Pepsi on Stage, em Porto Alegre. Após uma playlist impecável com o melhor do dancehall, dub, early reggae, rocksteady y otras cositas más feita pela cantora especialmente para os shows, o som sobe com “Legalize It”, do Peter Tosh, avisando que o show está para começar.
Momento “quartinho em Salvador”, onde a artista apresenta o embrião de algumas músicas, como “Teto de Vidro” e “O Lobo”. Fotos: Carol Govari
De cara, somos apresentados ao álbum Matriz por meio do vídeo de “Bicho Solto”, feito por Otavio Sousa e com imagens captadas por Alisson Louback, enquanto a banda entra no palco. Pitty abre o show com “Ninguém é de Ninguém”, seu single mais recente – e uma das músicas preferidas da galera –, enquanto somos engolidos pela projeção do videoclipe.
O Matriz 2.0, em Porto Alegre, apresentou nove (contando “Bicho Solto”, no começo) das 13 faixas do disco novo. Matriz, como muitos já sabem, aconteceu de forma orgânica, na estrada, e Pitty recupera e articula diferentes referências e gêneros musicais ao longo do disco. Me impressiona, muito, como Pitty fez tudo isso funcionar no palco. Sempre pensei que “Redimir”, uma das minhas faixas preferidas, não funcionaria ao vivo. Mas ela funciona tanto – mas tanto! – que sigo até agora impactada, com aquela batida no meio do meu peito e as palmas ecoando na minha cabeça. Se fecho os olhos, vejo Pitty ali na frente do monitor do Martin, com aquele foco de luz a iluminando, o resto do palco todo escuro. Um absurdo. Hipnotizante. “Bahia Blues”, digna de uma peregrinação de fãs por Salvador, é outra faixa que no disco eu acho incrível, mas também achava que poderia ficar meio linear ao vivo, e preciso dizer: eu nunca me senti tão feliz por estar completamente enganada. “Noite Inteira” é a voz da resistência, entoada pelo público no maior clima de união; e “Te Conecta”, que apareceu na turnê anterior dando pistas de onde Pitty poderia chegar, faz infinitamente mais sentido, agora, nesse show.
“Roda”, com participação de Russo Passapusso e Beto Barreto, do BaianaSystem, foi o momento em que a banda passou de trator em cima da galera. E eu sei que parece contraditório dizer que a banda “passou de trator” em cima do público, sendo que foi, talvez, o momento mais explosivo do show, mas é a única forma de expressar o que senti naquele momento.
“Motor”, uma das partes mais envolventes do show
“Motor” é a parte que chega ~dói aqui dentro. Linda, sensível, tri bem pensada entre “Na Sua Estante” e “Redimir”. Na verdade, tudo nesse show transparece que foi muito bem pensado. Há uma história sendo contada, com retomadas ocasionais ao passado, como o momento “quartinho de Salvador”, mas com uma narrativa muito bem amarrada e em direção ao futuro, vide “Submersa”, que lindamente faz com que a gente saia daquele quartinho e retorne a 2019. Matriz2.0 tem um show eficaz, com quadros cênicos, onde a plateia não enxerga os andaimes da construção: é coeso, coerente. Há uma progressão que começa em “Bicho Solto” e termina em “Serpente”, no bis; um caminho por onde Pitty abusa de toda a sua competência pra manter o público imerso naquilo que ela oferece de melhor: uma performance ao vivo.
Além disso, a artista mostra um baita trabalho braçal e está presente em 100% da noite que entrega: da playlist que toca antes do show, passando pelo roteiro cenográfico, projeções, iluminação, direção; ou seja, tudo ali reflete seus posicionamentos e colabora para que o show aconteça de forma catártica.
PROJETO PALCO ABERTO
Alice Kranen, a artista convidada para o Palco Aberto de POA
Um dos diferenciais da turnê Matriz é o Palco Aberto, projeto onde bandas locais abrem o show de Pitty. Parceria da cantora com a TNT Energy Drink, o projeto tem curadoria de Tony Aiex, editor-chefe do site TMDQA, e acaba dando espaço para que novos artistas – todos com projetos autorais – sejam conhecidos por um público maior, fomentando a cena local. Já passaram pelo projeto Flaira Ferro (PE), Mulamba (PR), Violet Soda (SP) e Ouse (CE). Em Porto Alegre, a artista convidada foi Alice Kranen, uma cantora e compositora de apenas 14 anos, que traz bastante influência de blues, folk e rock em suas composições. Visivelmente emocionada, Alice conduziu muito bem seu show, tocando violão em todas as músicas, e apresentou os singles “Travas em Portas” e “Talvez”, entre canções próprias e covers, como “Zombie”, do The Cranberries.
O projeto Palco Aberto é uma das coisas mais legais que estão acontecendo na música, atualmente. Pitty, que veio do underground, faz uma ponte entre o cenário independente e o mainstream, pois sabe como é importante fornecer espaços para que novos talentos mostrem seus trabalhos. É uma oportunidade que certamente marca a carreira – e a vida – desses novos artistas.
Outras informações sobre o projeto Palco Aberto, que ainda vai rolar em mais 16 cidades, você encontra clicando aqui.
7 DE OUTUBRO
Como comentado no início deste texto, hoje, além de ser o dia do compositor brasileiro, é aniversário da Pitty. Sou péssima com demonstrações públicas de afeto – apesar de achar que esse texto está beeeem claro –, mas uso esse finalzinho pra parabenizar a minha compositora brasileira preferida, uma das artistas mais gentis que eu tenho a sorte de conhecer, e que mesmo depois de 15 anos segue me instigando e me fazendo voltar pra ver o que ela vai aprontar no palco. Feliz ano novo, Pitty ❤
Elza Soares, ou melhor, Doutora Elza Soares, definitivamente uma das maiores artistas da nossa época, passou com sua turnê Deus é Mulher pelo Opinião, em Porto Alegre, no último sábado, 25 de maio.
Depois de dois anos sem se apresentar em Porto Alegre, a Voz do Milênio (eleita pela BBC de Londres) cantou as músicas do seu disco mais recente, o elogiadíssimo Deus é Mulher, e sucessos que traz ao longo de toda a sua carreira.
Elza e banda, sob forte aplauso, ao final do show (Foto: Carol Govari Nunes)
Uma banda excelente acompanha Elza nessa turnê, que tem direção musical de Guilherme Kastrup (também é o baterista da banda). Além de Guilherme, vemos no palco Rodrigo Campos (guitarra e cavaco), Rafa Barreto (guitarra e Synth), Luque Barros (baixo e synth), Da Lua (percussões) e Rubi(vocais). Na verdade, essa banda não “acompanha”, somente, Elza; essa banda faz um show que preenche todo o ambiente: é vivo, pulsante, uma delícia de assistir. E sentada em seu trono, tal qual a rainha que é, Elza Soares emociona tanto que eu nem encontro adjetivos suficientes para explicar.
Vê-la ao vivo, cantando com aquela voz inconfundível, é um privilégio. Para além de sua voz excepcional, a presença de Elza no Opinião foi marcada pela força, garra, gentileza, generosidade, humildade e gratidão que a cantora transpira.
Sob aplausos e gritos constantes da plateia, que entoava repetidamente “Doutora! Doutora! Doutora!”, título que recebeu no domingo, 26, na UFRGS, por sua relevância artística e também por causa de sua vida pública no combate ao racismo e à promoção da cultura afro-brasileira – este foi o primeiro título de Doutora Honoris Causa concedido a um músico pela universidade, vale lembrar –, Elza defendeu os professores, as universidades públicas, falou do direito à educação e de como a educação transforma vidas. Um show político e extremamente necessário dentro do contexto em que nos encontramos.
Elza Soares – Deus é Mulher (Foto: Carol Govari Nunes)
Elza falou também de sua relação de amor com a cidade e com o amigo Lupicínio Rodrigues, que a trouxe para Porto Alegre para fazer o primeiro show profissional de sua carreira. Além do amor por Porto Alegre e por seu povo, falou da necessidade do amor em tempos de ódio, contagiando o público (super diverso em gênero, raça e idade), que a respondia fervorosamente em todos os momentos.
Com seu disco anterior, A Mulher do Fim do Mundo, que lhe rendeu um Grammy Latino de melhor álbum de música popular brasileira, Elza se conectou com um público novo, virtual, necessitado de referência e representatividade. Hoje, com seus quase 70 anos de carreira, a artista, com o disco Deus é Mulher, reforçou seu lugar de fala e atinge cada fez mais todas as faixas etárias – consolidando-se como porta-voz de um povo faminto por discursos coerentes e letras que falem sobre o empoderamento da mulher, a força dos negros, o direito das minorias; letras que falem sobre dar, comer, denunciar, gritar; letras que são puro sentimento e verdade quando saem de sua boca.
Elza Soares, a neta e bisneta de escravas, a mulher, mãe, a encaixotadora, a cantora, aquela que não foi levada à sério, aquela que, entre deboches e risadas, respondeu que veio do “planeta fome”, a artista gigantesca, a ativista, a mulher do fim do mundo, a voz do milênio, a doutora honoris causa: que privilégio vê-la ali, diante de mim, cantando ao vivo. Obrigada, Elza.
Este texto não é exatamente uma resenha sobre o show da Amanda Palmer. Ok. Eu avisei.
THIS IS THE PUNK CABARET
O ano é 2009 e eu recebo uma mensagem do meu namorado no MSN: “olha isso aí, é um lance punk-cabaré, acho que tu vai curtir”. Na mensagem, tinha um link. Lembro como se fosse hoje. Um cara tocando bateria e uma guria com uma maquiagem meio circense, meio teatral, uma voz grave, uma camiseta surrada do The Who e um jeito bem nervoso de tocar piano. Cinco notas no piano e eu estava com os olhos vidrados no vídeo, sem piscar. O link era um vídeo de “Sex Changes”, ao vivo, do The Dresden Dolls. A guria era a Amanda Palmer.
THERE WILL BE NO INTERMISSION TOUR
Volta para 2019. Amanda Palmer anuncia as datas da turnê do seu novo disco solo, There Will Be No Intermission, lançado em 8 de março. Mentira. Ela anunciou no final de 2018. Eu mesma comprei o ingresso em 2018. Mas ok, volta pra 2019: o terceiro dia da turnê, que começou em Detroit, foi aqui em Montreal, mais precisamente no dia 23 de março de 2019, no Monument-National.
Ainda não sei como escrever ou organizar tudo o que aconteceu nesse show, então eu vou escrever numa tentativa de (me) organizar.
I’M NOT CRYING. YOU ARE!
Pois bem: para começo de conversa, eu não choro em shows. Eu amo shows, mas eu não choro em shows. Chorei em shows pontuais – mais precisamente 3 ou 4, os quais estão descritos em algum lugar nesse blog –, e eu também não fico nervosa para ver ou falar com algum artista. Até faço uns desafios mentais de “quais artistas me deixariam nervosa, caso eu os encontrasse” e a lista tem um total de 0 pessoas. É uma arrogância da minha parte, até; como se eu fosse (ou quisesse ser) imune a ficar desconcertada perto de alguém.
Pula para o final do show, depois de eu ter falado com a Amanda Palmer e ela ter autografado um livro que ela mesma comprou num sebo aqui em Montreal – alternativa após ter ficado sem merch no segundo dia da turnê, em Toronto. Meu namorado pergunta: “tu tá tremendo?”, eu estava tremendo inteira. Acho que o que me bateu, mesmo, mais do que tudo, foi o intenso contato visual. Aquele que ela fala no livro, fala nos posts em seu blog, fala em tudo que lugar. Eu mal conseguia vestir meu casaco que suporta até -35ºC. Eu sentia meus cotovelos tremendo. Eu nem sabia que cotovelos tremiam. Que diabos essa mulher fez comigo?
Volta para o começo do show, após o anúncio de uma voz com sotaque britânico fazer aquele pedido clássico para a audiência silenciar os celulares (a voz é de Neil Gaiman que, além de pedir para silenciarmos os celulares, lista gentilmente o que vai acontecer no teatro pelas próximas horas – inclusive que “there will be one intermission”).
Legenda: não tenho legenda
Amanda entra, senta na beira do palco, com seu ukulele desplugado, sem microfone, e quando ela começa “In My Mind”, do disco Amanda Palmer Goes Down Under, eu instantaneamente começo a chorar. Simples assim. Ela basicamente falou “in my mind” e eu caí num choro desesperado. Eu não tive tempo de, por exemplo, pensar que “ok, que legal, estou num teatro massa, no Canadá, vendo uma das minhas artistas favoritas” – eu simplesmente desandei num choro sem precedentes. Para o meu azar, eu tinha passado um lápis de olho que não era a prova d’água – afinal, eu não choro em shows – e no intervalo eu fui ao banheiro e vi que eu tinha lápis na testa, nas mãos, no queixo, nas bochechas e até no pescoço.
Tento me recompor e fazer meu nariz parar de escorrer; o teatro num silêncio sepulcral, Amanda segue lindamente tocando “In My Mind”, eu tentando engolir o choro, já começando a ficar com vergonha, tentando não fazer barulho para pegar um lenço na bolsa – em vão, já que os lenços estavam dentro daquelas embalagens plásticas e dessa forma eu fazia mais barulho do que enquanto estava apenas fungando o nariz. Eu ia deixar aqui uma nota mental para no próximo show levar lenços fora da embalagem plástica, mas eu não preciso: eu não choro em shows.
EVERYONE YOU LOVE IS GONNA DIE
Amanda vai para o piano, mas não sem antes iniciar uma longa conversa que teria sequência pelas próximas 3 horas e meia. There Will Be No Intermission é um disco triste. É um disco biográfico, brutalmente honesto e comovente. There Will Be No Intermission, o show, também é triste, biográfico, brutalmente honesto e comovente. Ela disse que tentou avisar as pessoas sobre isso na internet: “it’s the saddest album EVER”. Avisou que iríamos chorar, mas também iríamos rir. Ela encorajou a audiência a gritar: “Amanda, I’m too sad!”, caso fosse necessário. Choramos muito, rimos muitos. E assim seguiu durante todo o tempo em que passamos naquele teatro inaugurado em junho de 1893 na Saint Laurent Boulevard.
There Will Be No Intermission fala de dor. De sofrimento. De aborto. De dúvida. De morte. De solidão. De insegurança. Amanda está ali, de peito aberto, numa autopsia emocional. Disse que pessoas ficam insanas com ela e perguntam “por que caralho ela fica colocando luz sob esses temas obscuros”. Ela responde: “I’m artist. It’s my fucking job. My job is to take the dark and make light”.
Ao longo do show, ela dividiu com a audiência as histórias de cada música. A maioria das músicas tocadas foram do recém-lançado álbum, com canções escritas nos últimos sete anos e financiadas pelos mais de 15.000 apoiadores que a artista tem em seu Patreon. Falou da perda de Anthony, seu melhor amigo e confidente, que morreu de câncer – quem leu o The Art of Asking ou a conhece da internet, que seja, deve estar familiarizado com o assunto –, falou de questões maternas principalmente ao tocar “A Mother’s Confession”, talvez uma das faixas mais intrigantes e maravilhosas do novo disco. O coro de “at least the baby didn’t die” foi lindo e, ironicamente, muito divertido.
Aliás, quem não ouviu o The Will Be No Intermission, faça isso imediatamente. “A Mother’s Confession”, por exemplo, te faz rir e chorar simultaneamente; “Voicemail for Jill”, que ela disse tentar escrever há 23 anos, partiu meu coração em 387 pedaços – te desafio a ouvir a música e ver o clipe sem se abalar (é uma das mais lindas e tristes do disco, e também uma das mais claras: fala de empatia, de “I’ve been there; and now I’ll be there for you”. Sério, veja esse clipe, entenda essa letra, pense nesse assunto); “Drowning in the Sound” é TÃO INTENSA que me dói fisicamente – e talvez a minha preferida do show, ao lado de “Machete”; em “The Ride”, quando ela diz “I want you to think of me sitting and singing beside you” eu derreto inteira e, depois, aceito: “It’s just a ride / the alternative is nothingness / we might as well give it a try”. Para finalizar, é precisa quando lembra: “everyone you love is gonna die”. Assim, direto na boca do estômago. It’s just a ride.
AMANDA FUCKING PALMER (Foto: Carol Govari Nunes)
IF YOU CAN HEAR, IF YOU’RE AROUND, I’M OVER HERE
Enquanto artista fazendo arte, Amanda Palmer é certamente uma das minhas favoritas – e está sempre no meu Top 3 – por inúmeros motivos: 1) o jeito como ela lida com o que de mais vulnerável existe no ser humano e a capacidade de colocar isso em arte. Ela comentou que as pessoas falam que, para ser artista, você tem que sofrer, mas ela aponta: na verdade, todo e qualquer ser humano sofre; se você está vivo, você vai sofrer. Você é artista porque você faz arte a partir desse sofrimento – esse é o ponto; 2) ser irônica diante de situações em que as pessoas não esperam que você aja com ironia; 3) falar com clareza e profundidade sobre temas que doem e que a gente sente vergonha; 4) assumir que é difícil mudar, que a busca pela cura é constante e trabalhosa, e 5) por último, mas não menos importante, pela forma como ela lida com a cobrança dos fãs. Amanda contou que Neil disse pra ela que se você dá o que seus fãs pedem, você fracassou. Você tem que dar o que seus fãs nem sabiam que queriam. Para mim, quando ela disse isso, ficou tudo muito claro – inclusive o meu choro no começo do show. Eu não queria chorar, ou eu não sabia que eu queria e precisava chorar?
Em relação à performance no palco, aquele vídeo de “Sex Changes”, que eu vi 10 anos atrás, não é nada comparado a vê-la ao vivo, ali, cantando e tocando piano. Amanda estudou teatro, foi artista de rua, estátua viva, trabalhou com inúmeros tipos de arte, e isso certamente afeta o jeito como ela se comporta num palco. Antes de ser musicista, Amanda é performer. Uma voz serena e confortável falando de temas desconfortáveis. Uma imposição vocal intensa e ardente quando precisa ser. O jeito que ela se mexe enquanto toca piano é um absurdo. Ok, acho que isso é suficiente. Eu nem me atrevo a analisar o show – na verdade, eu nem consigo. Eu só consigo sentir, e eu ainda estou sentido muito e estou sentindo tudo.
A verdade é que eu vivo na defensiva e me incomoda quando pessoas me causam esse efeito – ultrapassam a minha faixa de “proibido ultrapassar”, não respeitam o aviso de “mind the gap”; bom, aparentemente eu que me descuidei e caí no vão – e sigo caindo até agora. Eu estou há 4 dias tentando digerir o que esse show fez comigo. Eu fui obrigada, no domingo, a levantar da cama e trabalhar, afinal, os textos não se escrevem sozinhos, mas passei o dia num processo de luto, ou de ressaca, sem entender o que havia acontecido. Doía tudo. Física e emocionalmente. Honestamente, até agora eu não faço ideia se estou doída ou doida. Ou os dois. Continuo oscilando entre a mais profunda tristeza e a completa excitação. Que diabos essa mulher fez comigo?
I CAN EVEN FUCK HIM IN THE ASS
No fim, para delírio coletivo – no começo do show ela disse que tocaria um trecho, caso o clima ficasse muito pesado –, rolou Coin Operated Boy, do The Dresden Dolls.
(não faz sentido gravar uma música que não é do disco novo, né? Mas foi a única música que eu gravei do começo ao fim. As outras eu estava imersa demais pra fazer qualquer coisa).
I AM NOT EXACTLY THE PERSON THAT I THOUGHT I’D BE
Eu queria escrever sobre tudo o que eu pensei/repensei desde que conheci o trabalho da Amanda Palmer. Queria contextualizar falando do crowdfunding mais bem-sucedido da história do Kickstarter, do The Art of Asking, do “we are the media”, do seu perfil no twitter, da sua conferência no TED. Queria falar do Patreon. Queria falar inclusive da versão de “Everybody Knows”, do Leonard Cohen, que ela fez nesse show aqui em Montreal. Eu tenho um monte de coisa para falar, mas só consegui falar de como esse show me afetou de uma forma que nenhum outro show me afetou, até hoje. Esse é provavelmente o texto onde eu mais me expus desde que tenho esse blog – e eu simplesmente sentei e escrevi. Escrevi porque precisava escrever. Não pensei em mais nada. Eu sempre tento ser minimamente profissional, mesmo quando falo de artistas que eu adoro, afinal, esse é o meu trabalho. Mas dessa vez não.