Archive for the ‘Rock’ Category

Carol Govari Nunes@carolgnunes

Foi numa tarde de 2000 que minha irmã me fez sentar no sofá e escutar algumas músicas do “Janis Joplin’s Greatest Hits”. Meus pais têm até hoje o mesmo aparelho de som (toca discos, toca fitas e CD) no mesmo local, na mesma sala, e o início da minha identidade musical foi construída ali. Eu gostava de Bidê ou Balde e Acústicos & Valvulados e achei aquela Janis Joplin muito, muito, muito estranha. Eu não tinha paciência pra aquela gritaria dolorida, que não me deixava muito confortável. Menos de dois anos depois eu estava pegando escondido a agenda da minha irmã para copiar as frases de Janis Joplin, Jim Morrison e Jimi Hendrix. Aprendi cantar “Mercedes Benz” num inglês mega fajuto e achava que tava arrasando. Na verdade, eu “cantava” todo o Greatest Hits e minha agenda de 2002 está praticamente coberta de trechos de suas músicas e suas frases de liberdade.

Há poucos dias, na disciplina de Estéticas da Comunicação, caiu em minhas mãos um texto intitulado “A liberdade na voz de Janis Joplin” (trecho do livro Atmosfera, ambiência, Stimmung: sobre um potencial oculto da literatura, do Gumbrecht), o qual eu deveria apresentar, e que me fez revisitar todos esses sentimentos pré-adolescentes.

Curioso que o texto fala justamente disso: da capacidade que a voz da Janis Joplin tem de nos levar para o longe do presente, incorporando uma geração. No texto, Gumbrecht comenta que a voz de Janis é “metal escuro, vibrante, cheia de dor e de esperança, tão firme que toda uma vida poderia se segurar nela”. O autor refere-se precisamente à música “Me and Bobby McGee”, e comenta que, logo após ser metal escuro, sua voz fica suave quando a memória encontra a mão de Bobby, mas depois volta a ficar tão só e cheia de felicidade perdida que desmorona para se fundir com a música. Também diz que a voz de Janis se transforma em dor – no presente, ela sonha com o passado, e que o drama de “Me and Bobby McGee” se desenvolve nas modulações e metamorfoses da voz de Joplin (por vezes, quando está de mãos dada com Bobby, sua voz é quase tímida, vem da ternura). Mesmo quem não entende inglês, entende a música, pois o sentido das palavras é secundário. E foi assim que eu entendi Janis Joplin.

Quando quer tratar especificamente dos conceitos, Gumbrecht diz que o registro de canções e da voz de Joplin mantém vivo o stimmung existencial da juventude que passou – algo que é condensado nos versos “freedom’s just another word for nothing left to lose” e “I’d trade all of my tomorrows for one single yesterday”. Na voz da intérprete, recordamos uma liberdade que não sentimos no presente do passado. Além disso, ter sido gravada pouco antes de sua morte confere à voz, assim como às atmosferas e aos ambientes que evoca, uma autenticidade que nos agarra – uma autenticidade diante do rosto da morte.

Enfim, deixo abaixo uma imagem de um trecho do texto. 44 anos sem Janis Joplin e mesmo assim sua voz continua a nos agarrar.

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Carol Govari Nunes @carolgnunes

O Josh Homme é tão perfeito que parece ser de mentira.

Eu não choro. Mentira, eu choro. Mas não em público, pelo menos. Eu consegui engolir o choro lá pela quinta música. Depois disso, durante as músicas seguintes, congelei. Fiquei hipnotizada, olhando para o palco sem me mexer. Só fui efetivamente bater cabeça em “Feel Good Hit of the Summer”. Confesso que não tenho sido o que se espera de bom público. Não faço parte do coro, não bato palma na hora combinada, não pulo abraçada com os amigos (até porque tenho ido a shows completamente sozinha), não fico gritando, enfim, não tenho atitudes muito tradicionais. Quem me vê de braços cruzados e completamente sisuda nem desconfia da minha excitação interna. Acho legal olhar para o lado e ver a galera abrindo rodas de pogo, acho divertidíssimo observar pessoas gritando e acenando para o palco, gesticulando na tentativa de fazer com que algum músico o veja, realmente fazendo parte daquilo. Mas eu também me sinto parte daquilo, só que de um jeito diferente: prefiro olhar compenetradamente, dançar na minha, bater palma na hora em que eu sentir vontade, mesmo que ninguém ao meu lado faça o mesmo. Eventualmente encontro pessoas perdidas com as mesmas atitudes, o que também é legal.

Percebo que o meu gostar tem sido cada vez mais pra dentro, e acho que isso meio que faz parte de envelhecer. Até então, o show mais emocionante da minha vida tinha sido o do Red Hot Chili Peppers (claro, tem o da Imelda May, que tá no Top 3, mas que também já faz parte da minha fase adulta), em 2002, aos 14 anos, onde eu me descabelei, gritei, pulei, desidratei, passei mal e fui parar na enfermaria, isto é, fiz tudo o que eu tinha direito. O mais engraçado é que eu tinha passado spray azul no cabelo, então o suor misturado com choro deixou meu rosto completamente azul. No final do show eu parecia um smurf. Tenho várias lembranças/histórias de quando eu gostava para fora, mas confesso que estou preferindo essa fase de gostar para dentro, mesmo que eu pareça completamente deslocada nos shows.

Queens of the Stone Age, Porto Alegre/RS, 27/09/14 (Foto: Carol Govari Nunes)

Queens of the Stone Age, Porto Alegre/RS, 27/09/14 (Foto: Carol Govari Nunes)

O show do QOTSA foi o melhor show da minha vida. Eu não consigo explicar, nem desenhar, nem nada. Logo no primeiro acorde de Millionaire eu vi que ia sair surda do Pepsi on Stage – Josh Homme e sua trupe chegaram com muita violência – e as guitarras ecoam no meu cérebro até agora. Acho que só quem esteve presente consegue entender o que aconteceu naquele espaço lotado. Não tenho palavras. Minha visão jornalística evaporou (ainda bem!). Eu até poderia tentar escrever uma resenha, mas seria desonesto da minha parte, pois eu não conseguiria expor 1% do que foi a noite do dia 27 de setembro.

E por mais que eu quase não tenha pulado, quase não tenha cantado junto, quase não tenha pirado fisicamente, parece que eu fui atropelada por um caminhão. Um caminhão chamado Queens of the Stone Age.

Carol Govari Nunes – @carolgnunes

Ela voltou com o pé na porta: chegou chegando com SETEVIDAS (a música) na abertura do show, não deu tempo para adaptações e nem tempo para a galera respirar entre uma música e outra. Sem pisar no palco do Opinião com sua banda principal há quase três anos, Pitty retornou sedenta ao bar na última quinta-feira, 21, para o show de lançamento do seu novo álbum. Iniciando pontualmente às 23h, o show de mais ou menos 1 hora e 45 minutos apresentou quase todas as músicas novas, além de hits dos outros discos, excitando o público a cada acorde tocado.

A mudança da disposição dos instrumentos no palco, que trouxe Duda e sua bateria para frente, fez com que a performance da cantora fosse enriquecida pela maior mobilidade, a deixando solta pelo palco. Pitty dança, pula, se mexe livremente, circula entre os músicos e se apresenta muito melhor do que antes. Um telão, que agora faz parte do show, é muito, muito interessante. E quando eu digo que “faz parte” é porque eu acredito que ele realmente integra o show, não está ali somente como suporte visual. Se é para ser assim, eu não sei, mas eu me perdi várias vezes naquelas imagens. Ponto alto para a nova iluminação de palco, que também está demais.

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A banda numa linha de frente, o que deixou o show muito mais interessante (Foto: Carol Govari Nunes)

Se dor exposta é pra doer, Pitty mostra, no SETEVIDAS, que a dor faz parte da nossa existência e que é tão natural quanto os momentos de alegria. Ela foge da obrigação de ser necessariamente feliz e não minimiza seus sofrimentos – muito pelo contrário –, deixa que eles transbordem em suas composições, transformando-os em um show brilhante e cheio de vida, porque a vida é composta de tudo isso.

SETEVIDAS (música, clipe, disco, turnê) é um renascimento, e só renasce quem morre. Se Pitty não tivesse morrido algumas vezes, ela não teria voltado mais experiente, mais sensual, mais autêntica, mais provocativa, mais livre, mais viva. Pitty nunca foi do time dos artistas que fazem músicas fofas (doces, sim) para relaxar, e sim músicas para provocar, para impulsionar, para questionar, para exorcizar e refletir. Não sei se todo mundo entende o que eu quero dizer, mas tenho certeza de que quem acompanha a sua carreira desde sua primeira respiração afobada em “Máscara” sabe do que eu estou falando.

Não digo que fiquei surpresa com o show, pois sei que a banda nunca fica estagnada e sempre aparece com novidades, mas fiquei muito bem impressionada e rendida. Por mais que eu já tivesse assistido a alguns vídeos na internet, nada no youtube consegue transparecer a essência de uma música executada ao vivo. No palco, que, para mim, é onde tudo faz sentido, Pitty liberta seu instinto mais primitivo e não, não tem domador. Por isso aconselho: se você puder, vá ao show e presencie esse retorno cheio de vida, de garra e de ousadia.

Natalia Nissen@_natalices

cartolas

O nome da música não é “a graça da saudade”, isso é o que eu senti quando ouvi e fiquei lembrando de Frederico Westphalen. Uma tia me perguntou se eu tenho saudades de lá e eu disse que sim, mas não a saudade de pensar a todo instante em voltar a viver lá. É a saudade das coisas boas que eu vivi.

Eu gosto de Cartolas e isso não é segredo. Se jogar o nome da banda na busca do blog já vai dar pra notar. As músicas sempre me surpreendem. Eu acho graça da música, do bom humor que ela tem. Por mais que a situação possa ser deprimente, tem graça.

Se doer, Tylenol. Pra secar a lágrima tem o sol.
E que atire a primeira pedra quem não ri com “curiosidade me faz queimar o dedo. Eita cidade mais ruim que não tem nada. Que todo mundo pegou alguém que alguém pegou”.

Sdds faculdade. Sdds voltar pra casa do pub a pé, com sapato na mão, e com a cara da derrota. Porque se tem dinheiro pra ir à festa ou pra pagar o taxi, jamais para os dois.

E de quebra, dá pra fazer o download do último CD da Cartolas “Apavorando o Flashdance”. Mas fica a dica, tem que atualizar o “News” do site, porque de New tem nada.

Que vídeo mais simples, mais bonito e irônico.

[youtube:https://www.youtube.com/watch?v=nopkW56WbEU&list=UU5ed4941JuJhvUavDW-k2RQ%5D

Carol Govari Nunes@carolgnunes

Aí que de repente eu voltei pra 2005 e pro álbum “Felicidade Instantânea”, do CPM22. Isto é, adolescência mode on. É provável que isto tenha sido motivado pelo clipe de “Um minuto para o fim do mundo” (do Acústico, gravado em 2013), que está passando repetidamente na TV, e me fez dar uma mexida nas memórias sofridas de todo adolescente que se preze.

Ouvi CPM22 de 2000 a 2005, ou seja, a banda foi trilha sonora de uma fase bem simbólica da minha vida. Depois, não sei por que, mas me distanciei do som da banda e confesso que não conheço nada de 2005 pra cá. Mas o que me fez escrever esse texto foram as sensações que “Um minuto para o fim do mundo” me trouxeram à tona: quem nunca achou que ia morrer por amor?  Quem nunca achou que perder alguém por um segundo seria o fim do mundo? Eu morria a cada meio ano, e muitas vezes por relacionamentos que só existiam na minha cabeça. Típico de adolescente. Culpa dos hormônios, provavelmente.

 Eu vivia numa mistura de “não sei viver sem ter você” com “doença de amor se cura com outro / o meu coração precisa paixão se não bate pouco” (essa já da Rita Lee, presente na minha vida desde sempre) que se repetia sem que eu percebesse e entendesse o que estava acontecendo. É legal olhar pra trás e perceber como a gente amadurece emocionalmente. Por mais que eu continue sendo exagerada em vários aspectos – pois isso é da minha personalidade e não há como fugir –, no quesito ‘relacionamento’ me encontro muito bem, obrigada, e isso é que é o mais interessante: voltar pra 2005 e perceber que, se eu estou muito bem hoje, é porque vivi intensamente toda essa fase de montanha-russa emocional e inconstância de sentimentos. Melhor ainda é que não tenho sequelas de uma adolescência morna e consigo conviver com tudo que eu fiz de errado, inclusive.

O fato é que praticamente todas as letras do CPM22 de 2000 a 2005 podiam ser usadas e escritas na agenda de todos os jovens apaixonados que namoravam um e eventualmente gostavam de outros 3, levando um pé na bunda sem saber o porquê, tadinhos. Pena que eu queimei as minhas (naquela velha tentativa de falsamente apagar tudo da memória), pois nelas continham muitas letras de músicas que me traduziam.

Nunca teve calmaria na minha vida e sempre me apropriei de músicas como se eu que as tivesse escrito. Até hoje, por mais que não esteja sofrendo por amor e nem me identifique momentaneamente com a letra, acho lindo e me desmantelo ao som de qualquer coisa que me machuque. Adoro ser tocada profundamente, sofrer. Na real, acho necessário. Seja por amor ou por qualquer situação. Seja ao som de “Suedehead”, do Morrissey, “Walking in the sand”, das Ronettes, “Baby please come home”, da Darlene Love ou “Um minuto para o fim do mundo”, do CPM.

E esse foi o meu momento “respirada do dia”. Agora vou voltar para os meus textos de Midiatização, Teorias da Comunicação e Audiovisualidade nas Mídias porque o tempo corre contra mim, sempre foi assim e sempre vai ser. Mas agora na academia.