O show e a pluralidade musical de Kamasi Washington

Posted: 27/05/2022 in Jazz, R&B, Shows
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Eu queria ser amiga do Kamasi.

Aquela figura imponente, carismática, incrivelmente talentosa, que entrou a passos lentos no palco do Araújo Vianna. Eu queria muito ser amiga do Kamasi.

Foi com essa frase na cabeça que saí do auditório ontem, dia 26 de março, após o show de um dos artistas mais talentosos da nossa geração.

Kamasi Washington (Todas as fotos por Gabriela Baum / Amora Imagem)

Com uma banda extremamente envolvente e entrosada, o saxofonista californiano fez jus ao título de “embaixador do jazz” – nomeação que, pela sua expressão durante toda a noite, ele parece pouco se importar. O que Kamasi parece de fato se importar é com a música em si: a diversão, o improviso, a magia do jazz. Kamasi está presente o show inteiro; sorri para seus companheiros de banda, senta, circula, dá espaço para que os outros músicos tenham destaque. Acho incrível assistir a uma banda que se olha. Uma banda que se olha e sente que deve fazer. Uma banda que não faz um show protocolar, que não tenta nos convencer de que é uma banda foda. E, diga-se de passagem, que banda era aquela?! O mais absoluto deleite observar Kamasi, Miles Mosley, Dontae Winslow, Brandon Coleman, Antonio Austin, Ronald Bruner Jr e a ma-ra-vi-lho-sa Patrice Quinn juntos no palco.

Parido na encruzilhada afrodiaspórica que liga a África e as Américas, o jazz brinca com o rock, o funk, o gospel e o R&B. Kamasi, nesse novo cenário, traz em sua bagagem referências da manifestação artística nascida em New Orleans, mantendo um pé na cultura popular, mas, com o outro, invoca elementos da música pop contemporânea, elaborando sua própria concepção musical. O ritmo sincopado, o suingue, a psicodelia, a improvisação, a estrutura, a sincronia fora de sincronia, as melodias quebradas: inúmeros significados, várias possibilidades, tudo celebrando perfeitamente a harmonia da diferença.

No palco, assim como em seus álbuns, Kamasi aponta na direção da pluralização, priorizando as artes fronteiriças, conflituosas, fazendo um show que é um movimento, uma passagem. O público nem percebe se uma música tem um ou sete minutos, tamanha a imersão a que fomos conduzidos.

Seja em sua vestimenta ou em suas melodias, Kamasi faz uso de seu corpo-político e tem muito êxito ao referenciar a ancestralidade africana durante toda a sua performance. Mesmo que na maioria de suas canções não haja uma única letra, o viés político é presente. E quando há letra, como é o caso de “Fists of Fury”, isso fica ainda mais explícito ao falar de luta coletiva, de retomada de poder.

Mais do que um show, o que Kamasi proporcionou na noite de quinta-feira, no Araújo Vianna, foi uma experiência inesquecível e excepcional.

Eu queria ser amiga do Kamasi.

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