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Carol Govari Nunes@carolgnunes

Eles foram surgindo devagar: com um Myspace, algumas demos, um Twitter  e só em novembro lançaram o primeiro disco. “Música doce para pessoas amargas”, dizem os músicos sobre o conceito do disco. Estamos falando do Agridoce, projeto de Pitty Leone e Martin Mendezz, o qual foi criando vida na sala da casa da cantora em idos de 2009.

Influenciados por Nick Drake, Iron&Wine, Elliott Smith e tantos outros artistas, Pitty e Martin, acompanhados do produtor Rafael Ramos, do  engenheiro de som Jorge Guerreiro e do fotógrafo/cinegrafista Otavio Sousa, se isolaram na Serra da Cantareira, onde lá permaneceram durante 22 dias do mês de agosto do ano passado para produzir o disco no qual Martin abusa dos violões e Pitty se relaciona carinhosamente com o piano.

Foto: Caroline Bittencourt

Cantando quase todas as faixas do disco, Pitty entona sua voz com uma incrível doçura, mas não se engane: a aparência doce das músicas reveste letras e contextos azedos.

Para dar vida ao disco no palco eles chamaram outros dois músicos: Luciano Malásia (na percussão) e Loco Sosa (que vai soltar os samples “de tudo que não é violão, nem piano, nem percussão”, explica Martin). “O resultado é intimista, mas o sentimento é rock’n’roll. No fundo sinto a mesma coisa que quando estou tocando uma bateria, só que com um pouco mais de inteligência”, diz Loco Sosa, o cara dos samples. Malásia também comenta que “é muito legal tocar e conviver com eles, as músicas são ótimas e é sempre um desafio, estamos começando a fazer shows. Por mais que a gente ensaie nunca sabemos muito bem o que vai rolar e isso é muito estimulante”.

Um pouco do que aconteceu desde o surgimento das  músicas até o lançamento do disco você confere nessa entrevista feita por e-mail para a Revista do Opinião, agora também no The Backstage – sem edições. Enjoy the trip, porque aqui você lê a original (um pouco maior).

Carol – O Agridoce surgiu na sala de Pitty, tomou uma grande proporção e agora está aí, chamando tanta atenção quanto a banda principal. Podem nos contar um pouco sobre como foi desde o nascimento do projeto até a ideia de gravar o disco?

Martin – Quando o repertório cresceu e começamos a nos sentir mais a vontade com esse novo formato a idéia de gravar um disco e fazer shows foi se tornando cada vez mais um desafio atraente e se mostrando um desdobramento natural do projeto. Rafael acabou sendo o grande catalisador desse disco, ele acompanhou o Agridoce a distância desde o começo e sempre manifestou a intenção de se juntar a nós nessa empreitada e de fazer um registro mais cuidadoso das canções.

Pitty – Demorou bastante desde as jam sessions caseiras até o disco. Já estamos há uns dois anos nessa de compor, maturar as ideias, resolver finalmente transformar o projeto num álbum. No começo, nem sabíamos que seria um projeto e muito menos que viraria disco. A coisa foi indo, foi indo…

C – O Agridoce é fruto de encontros descompromissados entre os dois. Demorou até vocês resolverem disponibilizar “Dançando” na internet, já que inicialmente era algo muito particular, ou foi uma consequência natural?

M – Disponibilizamos “Dançando” na internet no exato momento em que ela ficou pronta. Apesar do caráter particular e pessoal não resistimos ao desejo de compartilhar aquilo que tínhamos acabado de realizar e que tinha nos empolgado tanto.

P – Não lembro exatamente quanto tempo demorou entre só tocar em casa e termos uma música de verdade, pronta. Mas lembro que se passou um certo tempo antes disso.

Foto: Otavio Sousa

C – Se isolar em uma casa no meio do mato deve ter sido uma experiência muito interessante, artisticamente e pessoalmente falando. Dá pra perceber que as músicas saíram de uma casa e foram para outra, sem horário marcado em um estúdio. Isso foi pensado para não perder o caráter intimista?

M – Totalmente. Além disso estávamos atrás da aventura de gravar num ambiente que não foi previamente preparado pra isso, o que acaba gerando ótimos desafios e resultados surpreendentes. A maneira peculiar como os instrumentos soavam lá e os ruídos naturais da casa estão presentes em todo o disco e conferem a ele muita personalidade, essas interferências eram elementos que estávamos buscando quando fomos gravar lá.

P – E a imersão total e completa na coisa, sem interferência externa, sem telefone, internet ou televisão. Só a música e criação, 24h por dia.

C – 22 músicas em 22 dias. Existia alguma rotina na casa ou vocês gravavam, dormiam e jantavam na hora em que sentissem vontade?

M – Respeitamos acima de tudo o ritmo natural do disco, tínhamos um prazo e um trabalho a concluir mas tentamos fazer tudo no seu melhor tempo. Essa prolificidade acabou sendo fruto do clima agradável criado por essa rotina.

P – E acabamos criando um fuso horário completamente particular. Café da manhã às duas da tarde, almoço às sete da noite e dormir só quando o último pedia arrego, rsrs. E gravar e tocar o tempo todo que desse vontade.

C – É perceptível que até mesmo as músicas que vocês tinham disponibilizado no Myspace acabaram tomando novos rumos, ficando mais sofisticadas. Ficar apenas entre 5 pessoas ajudou nessa composição, já que vocês não sofriam influências exteriores?

M – Sim. Realizar esse disco em parceria com Rafael Ramos foi um fator crucial pro trabalho tomar esses novos rumos. Temos uma relação muito boa com ele, tanto profissional quanto pessoal, e sabíamos que permitir essa interferência seria muito proveitoso e enriquecedor.

P – É a questão da confiança e da sincronicidade de ideias que permite essa interferência. Desde o começo sabíamos que queríamos o mínimo de gente possível, porque cada um que chega vem com uma energia a mais. E sabíamos que as energias tinham que combinar, então cada um ali foi escolhido a dedo.

Foto: Caroline Bittencourt

C – Alguma ideia sobre o que fazer com as músicas que não entraram no disco, ou ainda é cedo para pensar nisso?

M – Ao seu tempo algumas delas vão tomando seu rumo, por exemplo “La Javanaise”, versão de Serge Gainsbourg que gravamos, entrou como bônus track na venda do disco pelo iTunes.

P – “BDay” apesar de não ter entrado no disco está no repertório do show, e por aí vai. Conteúdo nunca se perde.

C – Martin é guitarrista e no seu projeto com Duda (Martin e Eduardo) apareceu como letrista e vocalista. Como é dividir as composições? Vocês dividiram também as letras, ou um chegava com a letra e o outro com a melodia?

M – Essa divisão é uma característica do projeto, já tínhamos colaborado em composições anteriormente, mas o Agridoce é baseado nessa parceria. Não temos um método para compor, geralmente alguém chega com uma idéia e vamos desenvolvendo, mas temos casos de canções que já chegaram quase prontas e outras em que fizemos tudo juntos partindo do zero.

P – Eu tenho mais costume de fazer as letras/melodias e ele as harmonias por ser mais o terreno de cada um, mesmo. No Agridoce rolaram outros processos além desse, mas ainda prevaleceu a coisa de “cada um canta sua letra”. A tendência é misturar cada vez mais, acho eu, até o ponto de ninguém mais saber quem fez o quê.

C – “Upside down”, só para exemplificar, ratifica a cumplicidade entre a dupla. A letra é natural, bonita e simples, além de uma amargura no refrão. Aquele “I don’t belong here” não vem de hoje, acredito eu. Pensando nisso e na música brasileira, parece que estamos todos em uma geração que foi perdendo a sua personalidade… Infelizmente existe a necessidade de se encaixar para ter espaço. Como vocês enxergam essa adaptação das bandas à modinha atual?

M – Acho que isso se deve a uma “preguiça” que foi inoculada no grande público pelos meios de comunicação em massa, as pessoas esperam que a mensagem venha facilmente digerível e numa embalagem familiar. Apesar dessa estética predominar ainda existem bons exemplos de artistas na contramão dessa tendência, e como tudo é tão volátil quando se fala de mercado acredito que essa mesa, mais cedo ou mais tarde, vai virar.

P – A gente não pensa nem em se encaixar nem em desencaixar. A gente gosta de fazer as coisas que a gente gosta, e depois fica torcendo para que haja um nicho pra ela em algum lugar do mundo. Eu não acredito nessas bandas ou artistas que buscam “se encaixar”. É o que você falou, não tem personalidade e fica evidente a farsa. Só engana quem não tem um pouco de senso crítico- o que, infelizmente, pode ser a maioria.

Foto: Otavio Sousa

C – Você assinam todas as músicas do disco, exceto “Say” e “Please, please, please, let me get what I want”, uma versão do The Smiths. Quem também assina “Say” é Ricardo Spencer, diretor/roteirista que já fez vários trabalhos com vocês. Como foi a composição dessa música? 

M – A música nasceu na varanda da casa de Pitty entre algumas cervejas enquanto nos preparávamos pra ir a um show. Spencer tinha a idéia de uma melodia, peguei o violão e fomos encaixando as coisas. Gravamos toscamente no celular e depois num ensaio eu e ela finalizamos o arranjo enquanto Spencer terminava a letra, foi tudo muito rápido e divertido, essa música foi um presente pra nós.

C – O videoclipe de “Dançando” já tem mais de 320 mil visualizações no Youtube, e sabemos que o Otavio Sousa registrou todo o período em que vocês ficaram na casa. Há previsão de um novo clipe por aí ou um possível DVD?

M – Ainda não sabemos o que vai se tornar o material, mas já assistimos alguns trechos e temos muita vontade de mostrar isso pras pessoas.

P – Eu acho que pode virar alguma coisa; não sei se documentário, filme ou tudo misturado. Mas tem todo o processo de gravação documentado, e acho que pode ser interessante dividir isso em algum momento.

* Nos dias 20 e 21 de abril o Agridoce tocará no Opinião. Como citado no início do texto, essa entrevista está na Revista do Opinião e você pode encontrá-la na própria casa de shows e também no Pepsi On Stage, UFRGS, PUC, ESPM, Lojas Vivo, Lancheria do Parque, Zeppelin CD’s, A Place e Casa da Traça, em Porto Alegre.

Carol Govari Nunes@carolgnunes

Em 2001 surgiu em Brasília a “Noite Senhor F”, e não demorou muito para que ela se transformasse em referência para a cena independente local. Desde a sua inauguração, a Noite Senhor F se tornou um dos eventos mais respeitados do país. A Noite já foi realizada em outras capitais, como Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Belo Horizonte, Goiânia e Belém. Agora o evento acontece regularmente no Bar Opinião, em Porto Alegre, onde no último domingo, dia 19 de junho, aconteceu a quinta edição da Noite Senhor F.

A Catavento de Bolso abriu a Noite Senhor F no Opinião (Foto: divulgação)

A banda de abertura foi a Catavento de Bolso: formada por Fernando, Nicolas, Guilherme e Jesus, que são naturais de Canoas e Esteio. Banda mais ativa do Coletivo Tomada Rock, os músicos estão na estrada há quatro anos, sendo que dois foram apenas de ensaio. Jesus entrou por último: “eu era fã da banda e rolou de tocar com eles”, disse o tecladista, que ainda citou as duas músicas que eles lançaram na internet no primeiro semestre de 2009: “Tantas pessoas” e “Só eu que presto”.

Atualmente, eles estão gravando um EP de quatro músicas que deve ser lançado em outubro deste ano, além de uma faixa bônus que talvez entre neste primeiro EP.

Também natural da região metropolitana de Porto Alegre, a banda O Curinga, formada originalmente por João Lucchese, Diego Salles e Samuel Muller, de Novo Hamburgo,  foi a segunda atração da noite. No momento, a banda está no Estúdio Suminsky gravando um CD que provavelmente será lançado em agosto desse ano, além de ter na internet o clipe do single “Suspirando ao acordar”, gravado pelo Clube 7, uma produtora de audiovisual de Porto Alegre.

O Curinga está em estúdio e pretende lançar o disco em agosto (Foto: Carol Govari Nunes)

Em quase 3 anos de atividade, O Curinga já gravou dois EP’s independentes: o primeiro, intitulado “Embaralhado”, com três músicas, e o segundo “Prelúcio” também com três músicas.

As letras dos caras falam basicamente de pessoas e sociedade: As músicas “Primeiro, Segundo e Terceiro ato” são sobre um único personagem que veio de um livro que nos influenciou muito, chamado “O dia do curinga”, de Jostein Gaarder. O livro é sobre filosofia e daí também veio o nome da banda”, disse Diego Salles, baixista da banda.

Neste link você assiste um trecho destas músicas:  http://www.youtube.com/watch?v=QA18kwo98HI

Ao serem indagados sobre a cena independente – afinal, esse é o enfoque da Noite Senhor F, os músicos reclamam da falta de apoio local. Dizem que se a banda não tiver um contato grande, não consegue tocar em nenhuma rádio, além do público em Porto Alegre ser muito fechado, não comparecendo em locais sem uma grande atração que chame para a festa, dando preferência a nomes conhecidos. Daí a importância de tocar no Opinião, para que sejam vistos e quem sabe assim consigam contatos importantes.

A terceira e última banda da Noite foi a Volantes. Portoalegrenses radicados em São Paulo há pouco tempo, Arthur Teixeira, Bernard Simon, Fabricio Lunardi e Filipe Consoline estavam distantes da terra natal devido à agenda de shows que estão fechando por todo o Brasil, inclusive no Nordeste.

A Volantes foi a última banda a se apresentar na Noite Senhor F (Foto: Carol Govari Nunes)

No domingo eles lançaram o clipe “No Corredor, ali” dirigido por Rafael Kent, que “abraçou a causa”, segunda Arthur Teixeira, vocalista da banda. Arthur comentou também que em São Paulo são eles mesmos que fazem tudo, enfatizando o apoio da gravadora Deckdisc, que foi quem lançou através do novo selo Vigilante um compacto em vinil com as faixas “Maçã” e “No Corredor, ali”  (que você encontra no site da 7 Polegadas, além de várias outras coisas deles e de outros artistas).

– Preciso agradecer muito à Deckdisc, porque eles investem em artistas nacionais, sendo a única gravadora 100% independente do Brasil. O Rafael Ramos é muito amável e amigo de todos nós, é um prazer para a gente trabalhar em um lugar onde todo mundo acaba virando família, disse o vocalista.

A mensagem que os músicos deixam para as bandas iniciantes é que todos devem manter contato dentro e fora de Porto Alegre. Tem muita banda por aí e o mais importante é movimentar a cena, apoiar uns aos outros.

Sobre o Selo e a Noite Senhor F você encontra outras informações aqui.

Outras fotos você vê no nosso Flickr.

Carol Govari Nunes@carolgnunes

“A Trupe Delirante no Circo Voador” é o segundo DVD ao vivo da cantora (Foto: Carol Govari Nunes)

Na última quinta-feira, 16, o Bar Opinião apresentou o show de lançamento do DVD A Trupe Delirante no Circo Voador, da cantora Pitty.  Gravado em dezembro de 2010 e lançado há pouco mais de um mês, a cantora veio até a capital gaúcha com sua trupe, além de Hique Gomez fazer uma participação especial durante as músicas “Água Contida” e “Só Agora”, deixando os gaúchos enlouquecidos.

Com início por volta das 23h, Pitty e banda mostraram que continuam lotando a casa mesmo depois de 8 anos do primeiro show no Opinião. Pessoas já viajaram de vários lugares do estado – e até do país – para prestigiarem o show no Bar. Quando, em 2009, Pitty se apresentou no Pepsi On Stage, o público compareceu da mesma forma, porém, há quem diga que não rolou a mesma química que acontece dentro do Opinião. Esta é a magia de shows em lugares pequenos: público perto do artista não apenas assistindo ao show, mas fazendo parte do show. Em lugares grandes como a Fiergs e Pepsi On Stage isso não acontece, daí o calor absurdo e a vibração que você consegue sentir de qualquer canto do Bar.

Juntando isso com a qualidade do artista, não tem como não dar certo: durante uma hora e meia, ou mais, ou menos (não exija tanto assim de mim), Pitty apresentou as músicas do novo DVD e outros vários sucessos da sua carreira. Já passaram pela banda outros dois guitarristas e agora um novo instrumentista apareceu, o tecladista Brunno Cunha.

Não posso deixar de comentar o amadurecimento da cantora e banda no palco. Isso é completamente perceptível e sadio, apesar dos que insistem em chorar dizendo que não é a mesma banda do início da carreira. E é assim que as coisas devem ser, não? Mudar, evoluir. Já pensou que cansativo se a Pitty continuasse gravando discos iguais ao Admirável Chip Novo e fazendo o mesmo tipo de show?

Pitty tocou sucessos dos seus três discos de estúdio (Foto: Carol Govari Nunes)

Um detalhe interessante é que o público do Opinião mudou e o público da artista também. Há os que agiram preconceituosamente com “Me Adora” e não escutaram todo o Chiaroscuro – uma pena, já que A Trupe Delirante no Circo Voador comprova que com o passar dos anos Pitty infringiu as regras dos que queriam que ela continuasse do mesmo jeito e se solidificou como uma artista forte, independente e que evolui a cada disco.

 Mais fotos você pode ver no nosso Flickr.

Outros vídeos do show:

“Comum de dois”: http://migre.me/564zL

“Água Contida”: http://migre.me/564AB

“Hotel” (Sabonetes), por Martin: http://migre.me/564Cl

Amplifica Indie Rock

A noite seguiu no Porão do Beco, onde estava acontecendo o Amplifica Indie Rock (falamos do evento aqui) com as bandas Acústicos & Valvulados, Gulivers, The Modê e Tabascos.

Os Acústicos & Valvulados foram a última atração do Amplifica Indie Rock (Foto: Carol Govari Nunes)

Chegamos ao local por volta das 3h30min e pude assistir apenas ao show dos Acústicos & Valvulados. Depois de lançar discos com selos de importantes gravadoras, a A&V retornou ao cenário independente criando a produtora Mico e Jeg Fac, responsável pelos projetos da banda.  Mesclando sucessos dos 20 anos de carreira e do álbum Grande Presença, a banda animou os sobreviventes do Porão do Beco, já que era a última atração da noite.

E isso é tudo o que eu posso contar para os leitores do The Backstage. O resto o meu eu-etílico esqueceu, mas talvez um dia ele lembre. Ou não.