Archive for the ‘Shows’ Category

Carol Govari Nunes@carolgnunes

“Aos 14 anos, Flávio Basso pensou: “quero formar uma banda que seja mais famosa que Beatles e Rolling Stones juntas!”, e assim criou o TNT, no início dos anos 1980 (…). Depois, veio Os Cascavelletes, com quem lançou os discos Os Cascavelletes (1988) e Rock’a’ula (1989). Após Os Cascavelletes, virou o Júpiter Maçã, o nowhere man que a cada disco aparece com algo diferente. Do porn rock à bossa nova, passando pela psicodelia e contornando o mod, Flavio Basso é de Porto Alegre e não é de lugar nenhum. “O Júpiter Maçã usa aquela sunga de tricô que Caetano usa no disco Araçá Azul. Já o Apple, se aproxima do apfel, da manzana – ele é universal. O Apple pode ser amigo da Yoko (Ono)”: é assim que Flavio Basso define seus “eus” na série “Viajo por Porto Alegre”, de 2012.”

O parágrafo acima faz parte do meu projeto de tese de doutorado, aprovado na metade de dezembro de 2015, poucos dias antes da morte de Flávio Basso. Eu tinha passado tanto tempo imersa na obra do Flávio, em função do projeto, que não tive condições de escrever nada a respeito da morte dele. Agora, passada a fase do “luto” (como fã), estou pensando quais desdobramentos minha pesquisa de doutorado vai acabar tendo, mas esse assunto é tão longo, problemático e cheio de possibilidades que fica para uma outra.

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Império da Lã e Frank Jorge durante a música “Menstruada” (Foto: Carol G. Nunes)

Agora vamos falar sobre o Domingo no Parque – Império da Lã apresenta: A Efervescente Mente de Júpiter Maçã, que aconteceu no último dia 13, num lotado Araújo Vianna. Lotado. Com filas gigantescas, gente brigando por ingresso, xingando os organizadores do evento por terem liberado tão poucos ingressos durante a semana. Todo mundo queria ver Nei Van Soria, Frank Jorge, Marcio Petracco, Tchê Gomes, Edgard Scandurra, Carlinhos Carneiro, Marcelo Gross, Rafael Malenotti, entre outros (confira aqui todos os artistas presentes no evento), homenageando o man. Imagina que louco se todo esse povo estivesse lá para ver algum dos últimos shows do Júpiter, ainda em 2015? Será que haveria tanto desespero pelos ingressos? Será que teria sido menos “circo”, com menos pessoas rindo e xingando um artista no palco? Será? Não vou entrar (tanto) nessa discussão de uma possível necrocultura/necrofilia da arte, de como é clichê adorar alguém depois que este se vai, mas eu realmente fico refletindo acerca dessas questões. Mas não vou ser (tão) chata neste momento. Em hipótese alguma questiono a veracidade das homenagens – muito pelo contrário – sei que todos que estavam lá, na plateia e no palco, tinham os corações repletos de amor e saudades do Flávio Basso, do Júpiter Maçã, de todos eles – do homem e do artista que compôs os maiores hinos do “rock gaúcho”. (Vamos entrar na discussão de rock gaúcho? Vamos sim! Mas mais para a frente. Vamos por partes).

Então, 13 de março, pra mim, ficou marcado como um dia muito feliz na minha vida. Mais do que ver toda aquela galera que eu convivo e adoro ir aos shows, como Bidê ou Balde, Malenotti (Acústicos & Valvulados), Gross (Cachorro Grande) etc, eu vi Nei Van Soria, Luciano Albo, Tchê Gomes, Márcio Petracco e Frank Jorge tocando músicas do TNT e dOs Cascavelletes. Eu nunca tinha visto o Nei Van Soria no palco, por exemplo. Eu não vi nenhum show do TeNenTe Cascavel. Ver e ouvir “Ana Banana”, “Menstruada”, “Morte por Tesão”, “Identidade Zero”, “Cachorro Louco”, “Entra Nessa”, “Sob um Céu de Blues”, “Nega Bom Bom”, “Lobo da Estepe”, “Minissaia sem Calcinha” e “Carro Roubado” foi incrível. E também foi ótimo ouvir inúmeras músicas da carreira solo de Júpiter Maçã/Apple na voz de artistas emocionados e que se divertiam contando histórias do man.

Bom, mas tentando contar um pouco o que aconteceu no Domingo no Parque, o Império da Lã (que é maior do que todos os impérios que conseguimos estudar na escola, só não é maior que o Júpiter Maçã, como disse Carlinhos Carneiro) comandou muito bem a festa, diga-se de passagem. Era um entra e sai de artista que eu tentei anotar quem tocou o que em cada música, mas acabei desistindo. Um momento sensacional foi em “O Novo Namorado”, com Bidê ou Balde, Frank Jorge no teclado e Marcelo Gross na bateria. Ponto alto também para “Beatle Geoge” (sério, linda <3), Lobo da Estepe (só com Nei Van Soria cantando e tocando), Miss Lexotan 6mg (com Edgard Scandurra e Silvia Tape), “A Marchinha Psicótica de Dr. Soup” e “Um Lugar do Caralho”, no final, com todos os artistas no palco. Na verdade, é difícil escolher só um momento. O setlist foi muito bem pensado e todos estavam engajados em deixar aquele domingo na memória de todos os presentes. Foi uma bela celebração.

Esse Domingo no Parque, em especial, pode ser pensado não somente como uma homenagem à obra de Júpiter Maçã, mas como um evento que problematiza várias questões acerca da cena de rock em Porto Alegre. 2.500 pessoas estavam presentes no evento. Será, mesmo, que a cena musical de rock gaúcho perdeu espaço e prestígio junto ao público? Será que, de fato, o rock gaúcho sumiu do mapa? E de qual mapa estamos falando, como questionou Gerbase, em uma publicação em sua página no Facebook?

Eu acho que o evento aparece em um momento onde podemos e devemos discutir sobre a ressignificação de uma cena. Não interessa, nesse ponto da discussão, o que originou o evento. Interessa que ele aconteceu, que há artistas para tocar e há público para assistir. O rock gaúcho morreu? Ele está hibernando? Quais argumentos temos para fazer esse diagnóstico? Será que essa não é uma discussão apressada e leviana? Me parece mais interessante discutir e tentar entender a reconfiguração dessa cena, até porque a vida na cidade cria um ambiente totalmente efêmero, o que torna inviável que uma cena se mantenha a mesma desde quando Flávio Basso formou o TNT até hoje, por exemplo.

Mas essa discussão sobre a reconfiguração da cena de rock gaúcho ainda vai muito, muito longe. Por ora, ter visto o Império da Lã e seus trocentos convidados me fez pensar que não é só a mente de Júpiter Maçã que é efervescente. Segue o baile.

 

 

Carol Govari Nunes@carolgnunes

O bar Opinião abriu a temporada de shows 2016 com duas noites de ingressos esgotados: Criolo, nos dias 3 e 4 de março, celebrou os 10 anos do disco Ainda Há Tempo com um formato totalmente hip hop, somente com DJ e MC no palco.

Criolo contou a história do Ainda Há Tempo: disse que, na época em que foi lançado, eles não tinham dinheiro nem para fazer uma festa para os amigos, por isso a importância dessa turnê. O rapper conversou com o público o tempo todo – ele e o DJ Dan Dan conduziram a celebração/culto/missa/show/entenda-como-quiser de forma afirmativa (e com muito amor, agradecendo a presença de cada um que estava ali), emocionando os fãs durante os 90 minutos em que estiveram no palco. Quem acompanha Criolo, além do DJ Dan Dan (que, na ocasião, fez papel de MC), é DJ Marco, responsável pelas pick-ups. Quem estava controlando o P.A era Daniel Ganjaman (que assina a direção musical do show), chamando tanta atenção ali da cabine como se estivesse no palco. A turnê conta com um cenário produzido pelo artista plástico Alexandre Órion, que criou todas as imagens projetadas num baita telão de LED, enriquecendo visualmente show.

Além das músicas do Ainda Há Tempo, Criolo também tocou músicas dos discos Nó na Orelha e Convoque seu Buda.  Um dos pontos altos (altos no sentido sonoro, mesmo, praticamente ensurdecedor) foi quando o DJ Dan Dan levantou uma placa com os dizeres “3,75 NÃO!”. Criolo, neste momento (e em vários momentos do show), falou da importância da união, da importância de lutar. Era ovacionado constantemente. Eu vou a vários shows, mas nunca – nunca – tinha visto n a d a p a r e c i d o. O show vale pela experiência de observar o poder de condução de um artista e a devoção de seu público. É praticamente impossível não sair convertido dali. Talvez algumas pessoas perdidas (que não são más, como ele mesmo afirma na letra de “Ainda Há Tempo”), desconfiadas e relutantes em enxergar tanto amor e tanta esperança, mas a impressão que tive é de que 95% seguia fielmente – pelo menos no fervor do show – o que Criolo falava. Foi realmente impressionante.

Abaixo, um dos momentos do show, durante a música Grajauex, no dia 4:

*Ellen Visitário

Nem mesmo a garoa fina que caía na cidade de São Paulo dispersou um público eufórico que ansiava a volta do Nenhum de Nós à casa de show Cine Joia no último sábado, 28.

Dessa vez, a banda apresentava a sua nova turnê. Com um disco de inéditas, intitulado Sempre é Hoje, os gaúchos subiam ao palco, pontualmente à 00h30, já com o single “Milagre” na ponta da língua – canção carro-chefe que abre o álbum. Em seguida, a banda emplacou “Eu não entendo” e “Descompasso”.

“Astronauta de Mármore” veio logo depois e trouxe um público que cantou do começo ao fim o hit que embalou a trajetória do Nenhum de Nós.

Era evidente o quanto os fãs estavam engajados nas novas canções do grupo, e então, Thedy anunciou a próxima música que dizia o quanto depositamos o nosso tempo em celulares, e esquecemos-nos de olhar nos olhos um dos outros, por isso “Total Atenção” resumia este fato.

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Roberta Campos participou do show da banda gaúcha (Foto: Ellen Visitário)

“Diga a Ela”, “Das coisas que não entendo” e “Sobre o Tempo” foram as canções que as gerações de fãs embalaram a noite com a banda. Mas o auge de tanta emoção aconteceu com a participação de Roberta Campos em “Foi Amor” – terceira faixa do disco recém lançado. E sim, todos cantaram juntos, fazendo com que Thedy Corrêa se emocionasse ao fim da música. Mas a Roberta não saiu do palco sem deixar de cantar “De Janeiro a Janeiro” com a banda. E mais uma vez, todos se encontraram emocionados.

“Caso Raro” – mais uma do álbum “Sempre é Hoje” – trazia consigo um arranjo que fazia jus à letra misteriosa e profunda que o Nenhum de Nós tocou no Cine Joia. Anestesiados com novos acordes que os gaúchos complementavam aos memoráveis hits, como em “Julho de 83”, e apresentando mais uma música nova, “Amanhã”, a banda continuou com o baita show.

Em uma homenagem ao líder da banda Soda Stereo, o Gustavo Cerati – que nos deixou em 14 de setembro de 2014 – Thedy levou o público a cantar junto à versão original de “Musica Ligera”, e destacou que o disco “Sempre é Hoje” é uma homenagem ao músico argentino.

Além de dominar o vocal, a gaita e o violão, Thedy Corrêa estava acompanhado com os amigos Carlos Stein e Veco Marques nas guitarras, João Vicenti nos teclados e acordeon, o bem humorado Sady Homrich na bateria e o baixista convidado Estevão Camargo, e então, a banda finalizou o show com “Você Vai Lembrar de Mim”, “Paz e Amor” e a agitada “Vou Deixar Que Você se Vá”.

Pra falar a verdade, os paulistas não queriam saber do fim, e foram logo pedindo o bis em alto bom som. E lá estavam mais uma vez os gaúchos no palco e se despediram de São Paulo com a canção “Amanhã ou Depois” (junto com a Roberta Campos) e eterna “Camila, Camila”.

Dentre as apresentações que o Nenhum de Nós já fez no Cine Joia, essa, segundo os fãs eufóricos, foi a melhor e a mais contagiante. São quase 30 anos de carreira e os guris ainda conseguem emocionar e se contagiar com todos a sua volta, o que significa que a turnê “Sempre É Hoje” ainda percorrerá o país inteiro. É só o começo. E que começo!

*Ellen Visitário é graduanda do 4º período de Jornalismo, no Centro Universitário FIAM FAAM, em São Paulo/SP e redatora do Blog Rock 80 Brasil. E-mail para contato: ellenrodriguesvisitario@gmail.com

Carol G. Nunes@carolgnunes

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FDC no Sofar Sonds, em San Francisco (Foto: divulgação)

Foram 8 shows em 20 dias em algumas das mais importantes cidades dos Estados Unidos (Nova York, Los Angeles e San Francisco). Os gaúchos do Fire Department Club retornam de sua primeira turnê internacional com muita história pra contar e objetivos ainda maiores para o futuro próximo.

O quarteto de indie rock foi convocado para tocar no CMJ Music Marathon em Nova York, em outubro. FDC, único representante brasileiro, fez apresentações vibrantes e encantou um dos consultores do CMJ, Robert Singerman, que já convidou a banda para retornar no ano que vem.

Após o festival, a banda atravessou o país rumo à California para um roteiro recheado de shows intensos, gravações e o lançamento da versão especial do disco “Best Intuition”. O EP de 6 faixas estreou em 17º lugar nas paradas das rádios universitárias americanas.

Agora, o Fire Department Club está de volta ao Brasil e tem show marcado para o sábado, 28 de novembro, no Opinião. É a 7ª edição do Fellas Music Fest, que ainda contará com as bandas Second Hand e DR. HANK.

Então todo mundo já sabe: Fellas Music Fest, dia 28/11, às 23, no bar Opinião. Ingressos antecipados nas lojas Youcom (lote promocional: R$ 20; antecipados R$ 25 e na hora R$ 35).

 

Carol G. Nunes@carolgnunes

Na semana da consciência negra, o projeto Domingo no Parque promoveu a tarde de música afro-gaúcha, onde Richard Serraria, músico e pesquisador, apresentou um repertório baseado em canções que priorizam tematicamente a presença negra em Porto Alegre.

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O Bataclã FC fechou a tarde de música afro-gaúcha (Foto: Carol G. Nunes)

Cheio de convidados especiais, o show “Mais tambor, menos motor” animou a tarde de ontem, 22, no Auditório Oi Araújo Vianna. Foi incrível, emocionante. Há tempos eu estava tentando ir a algum show do Richard Serraria, então acho que dei muita sorte de pegar seus três projetos numa única tarde: Alabê Ôni, o grupo percussivo, de raiz africana no sangue, na cultura e espiritualidade, que abriu a tarde; o Pampa Esquema Novo, um disco lindo, com o qual eu tinha mais familiaridade, que trata da fusão de ritmos e gêneros envolvendo a poesia no formato canção com base na africanidade do cone sul; e o Bataclã FC, que faz uma fusão de rock, samba, funk, hip hop e música regionalista – tudo isso com muito peso e poesia.

Entre os convidados, Tonho Crocco, Andréa Cavalheiro, Marcelo Delacroix, Paulo Dionísio, Mini Bateria dos Imperadores do Samba, Ronald Augusto, Kaubi Tavares, La Uruleyra e Lilian Rocha (sério, o que foi aquela declamação – ou mastigação – da Lilian Rocha? To arrepiada até agora).

Os três trabalhos de Richard estão totalmente ativos: Alabê Ôni está fazendo a divulgação de um DVD, o Pampa Esquema Novo está com CD e o Bataclã FC acaba de lançar disco novo. Inclusive, dia 28, próximo sábado, tem show de lançamento do disco “A teimosia da felicidade” (Bataclã FC & Mastigadores de Poesia), no Espaço Cultural 512 (João Alfredo, 512), em Porto Alegre.

O repertório do show “Mais tambor, menos motor” foi esse:

  1. Aré para Bará (a capela, entrando no palco)
  2. Toborine (declamação Ronald Augusto)
  3. Alabe Oni (canto e dança Pingo)
  4. Cantos de Macambique e Quicumbi (Mimmo e Serra)
  5. Milongón e Chicalatum (canto Mimmo)
  6. Pampa Esquema Novo (Serraria e Andrea Cavalheiro)
  7. Giba Gigante Negão (Serraria e Paulo Dionísio)
  8. O Jangadeiro não sabe nadar (Serra e Andrea Cavalheiro)
  9. Doce amor se fez samba puro (Serraria, Delacroix e Andrea Cavalheiro)
  10. Só se for só
  11. Um bonde chamado desejo (Serraria e Tonho Crocco)
  12. Jaqueline Negadiaba (Andréa Cavalheiro e Marcelo Delacroix)
  13. Dread Lock (Paulo Dionisio)
  14. Bate bate forte o tambor (Kauby Tavares, Andrea Cavalheiro e Serraria)
  15. Crenças a céu aberto (BFC e Lilian Rocha)
  16. Menino Pandeiro (BFC e Andrea Cavalheiro)
  17. Barulhinho Bom (BFC e Marcelo Cougo)
  18. Quem é dusmeu vem junto (BFC, Andrea Cavalheiro e Tonho Crocco)
  19. Cabelo Pixaim (BFC, Angelo Primon, Ronald Augusto, La Uruleyra e Primon)

Quem esteve ontem no Auditório Oi Araújo Vianna pode prestigiar Richard Serraria, Tonho Crocco, Marcelo Delacroix e toda essa gente talentosa numa festa incrível de música e poesia – e de graça. Quem não foi, perdeu muito, acreditem. Essa celebração da música afro-gaúcha vai ficar marcada na história de Porto Alegre.

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Final do show Mais Tambor, Menos Motor, com todos os participantes no palco (Foto: Carol G. Nunes)

Sei que ainda vai rolar muita coisa massa no Domingo no Parque e acho que prestigiar os artistas locais é mínimo que a gente tem a fazer. São tardes de música gratuita, onde circula informação, cultura e muito aprendizado. Eu saí de lá sabendo coisas que eu não sabia antes de entrar. E vai ter tarde de samba, reggae, Império da Lã, Cantoras Gaúchas e outros inúmeros artistas ainda em 2015 e durante 2016: é só se ligar no site do projeto.