Letrux, eu posso ver a tua letra?

Posted: 30/08/2026 in Lançamentos, Shows
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Eu posso até ficar pelada, mas antes quero… falar sobre o show da Letrux no Opinião.

Começa que a gata quase não chega: pós-eclipse, pós-quase-queda-de-avião, o RS se esvaindo em água, Porto Alegre dando boas-vindas com aquele jeitinho adorável de apocalipse e caos climático — temporal, céu fechado, tudo aquilo que aqui, no Uruguai do Norte, a gente já naturalizou e abraçou como se o fim estivesse próximo (e não está?!). Essa cidade é complicada, mas, tirando uns probleminhas, promete e entrega drama & diversão.

Na última sexta-feira, dia 28 de agosto, Letrux chegou com seu SadSexySillySongs, lançado em março deste ano, cheio de canções tristes, bobas e safadas, para um público que não teve medo de derreter sob a chuva que caía e transbordava pelos bueiros entupidos da nossa capital.

O novo show (da frustração — não adianta gritar TOCA QUE ESTRAGO que não vai rolar — ou vai: em POA, por exemplo, surgiu, out of the blue, “I’m Trying To Quit”, porque a cantora precisava comemorar que estava viva) tem um repertório que parece ter sido escrito e escolhido sob a hipótese (ou a certeza?) de que a tristeza pode ser engraçada, o tesão pode virar argumento criativo e que, diante do colapso, o mínimo que nos resta é escrever uma boa (e/ou boba) letra sobre ele.

Uma coisa que aproxima a artista carioca do povo gaúcho é o humor debochado e uma autodepreciação irônica de quem sabe rir da própria cara. De se pegar discorrendo, com muita profundidade, sobre a grafia de suvaco, fuder e buceta (onde já se viu ser com “O”?!); de achar mais importante ganhar o prêmio de Mejor Alumna de Español do que um Prêmio Multishow; de encontrar no palavrão, no ridículo e na bobagem assunto suficiente para uma canção — ou para uma vida inteira.

Fotos: Sofhia Piqueres

Se ciúme dá frio em Letrux, a gente empresta um casaquinho, meias e luvas — afinal, se tem uma coisa que a gente entende é de frio e de tristeza; somos a capital do rock triste, reis e rainhas da estética do frio, onde Kurt Cobain provavelmente cantaria, trêbado, em algum bolicho da Cidade Baixa (mas nenhuma camisa de flanela daria conta — ele também precisaria de um casaquinho): “I miss the comfort in being sad”.

O frio e o ciúme, pelo menos, a gente já sabe: dá pra vestir. O problema é quando é a palavra que começa a esquentar. Guitarra maneira, baixo incrível, batera bem foda, mas sempre — sempre — vou ficar pela letra. Já que a caligrafia é tarada, a palavra esquenta e as frases se enroscam, ando doida pra ver um A passando em mim como um cometa, mas não lembro quando foi a última vez que alguém quis sacar minha mão com a caneta — o que é meio sad, nada sexy and super silly — como tudo nesse texto, no fim das contas.

Eu ainda escrevo muito à mão; topa trocar uns bilhetinhos comigo?

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