Porto Alegre, 30 de outubro de 2026. Um calorão. Finalmente, aparentemente, o frio começou a nos deixar e, como quase tudo que acontece cá nas terras dos extremos, fomos direto para temperaturas altíssimas. Isso dentro e fora do Opinião, onde Chico Chico fez seu primeiro show depois das eleições para a Presidência da República. Com os ânimos ainda exaltados, cinco dias depois das urnas, a noite reuniu excelentes condições para que Let It Burn / Deixa Arder fosse levado às últimas consequências. Chico Chico entrou no palco com o carisma e a visceralidade que já lhe são característicos, fazendo um show que arrebatou o público do começo ao fim.

Acompanhado da maravilhosa Banda Banda, formada por Pedro Fonseca (teclados), Fernando Nunes (baixo), João Viana (bateria), Walter Villaça e Kadu Mota (guitarras), Luiz Ungarelli (percussão), Let It Burn / Deixa Arder se materializa no palco transitando pelo rock, blues, folk e diferentes matrizes da música brasileira, garantindo um repertório que mostra um artista interessado em explorar diferentes linguagens, com arranjos que ganham ainda mais peso ao vivo.
Tivemos muitos momentos marcantes: entre eles, as releituras de “Let It Be”, dos Beatles – cantada no meio do público –, “Sujeito de Sorte”, de Belchior, e “Menino Bonito”, de Rita Lee, que fizeram a temperatura subir ainda mais. É importante pontuar que o vigor dessas releituras não está necessariamente (apenas) em homenagear seus compositores, mas na capacidade de Chico de trazê-las para outros contextos e outras experiências. Não é pouca coisa reunir Beatles, Belchior e Rita Lee, entre outros que eu poderia citar aqui, numa mesma apresentação, e fazer com que essas canções participem de um discurso musical que se sustenta, sobretudo, pela performance.






Em “Norte”, de Carlos Posada, Chico comandou um coro fabuloso para fechar a noite. Quando cantou que as coisas acontecem de uma hora pra outra, mesmo que demorem a vida inteira para acontecer, o bar inteiro, dividido por ele, respondeu em uníssono. Após semanas de psicose política, marcadas pelas tensões e expectativas em torno das eleições, foi comovente em ver tanta gente reunida, cantando junto. Naquele momento, depois de tanta disputa, a comoção coletiva reafirmou que ainda somos capazes de construir em comum. E, entre tantas coisas que ardem, queimam e porventura se destroem, saímos do Opinião com uma certeza: o amor nunca falhou.
