“Quero pintar uma tela branca. Como se faz? É a coisa mais difícil do mundo. A nudez. O número zero. Como atingi-los? Só chegando, suponho, ao núcleo íntimo da pessoa.” (Clarice Lispector)
Sete anos depois de Matriz (2019) – num movimento contracorrente à lógica da efemeridade da música pop –, Pitty lança, pela Deck, seu sexto álbum de inéditas. Nesse intervalo, plataformas mudaram, tendências nasceram e desapareceram, formatos de consumo se transformaram e uma quantidade incontável de músicas foi lançada e esquecida. O álbum, por sua vez, nasce de uma pausa, de um processo nada racionalizado e de uma necessidade de criar que veio antes de qualquer estratégia. É por isso que este sexto álbum se impõe como um primeiro: ele não retoma uma trajetória, mas inaugura outra relação com a mesma.
Ao dar ao disco o próprio nome, Pitty acentua essa inflexão: Pitty é o título do dossiê – não a conclusão da investigação. Depois de mais de duas décadas sendo observada, narrada, fotografada, entrevistada, categorizada e, como acontece com toda mulher que ocupa espaço público por tempo suficiente, repetidamente explicada pelos outros, ela produz aqui um inventário particular de si que escapa à lógica de um autorretrato convencional – afinal, autorretratos convencionais dependem de enquadramento, pose e escolha de perspectiva. Há alguma coisa mais incisiva acontecendo: Pitty se abre numa espécie de autópsia emocional feita em um corpo muito vivo. Ela escancara as gavetas, revira os órgãos, cavouca as entranhas, tira a armadura, arruma os colares embolados; põe raiva, desejo, maternidade, prazer, ironia, memória, contradição, tesão, cansaço e desobediência sobre a mesa e não demonstra grande interesse em fazê-los combinar. Em vez de produzir uma narrativa organizada de si, deixa coexistirem várias versões completas: não há fragmentos à espera de uma unidade, mas subjetividades que se atravessam, brincam umas com as outras e seguem compondo a mesma pessoa. Por isso, o gesto de nomear o álbum Pitty ganha outra dimensão: o nome próprio não estabiliza uma identidade; multiplica-a.

Essa coexistência organiza também o som. Pitty é um disco de rock porque trata o rock como linguagem porosa – e as próprias faixas tornam audíveis essas passagens: “Álbum de Casamento” se ancora no blues, uma de suas linguagens fundadoras, enquanto “Não à Deriva” engrossa o riff até encostar no stoner. Em “Pileque de Poeta”, com Felipe Vassão dividindo a produção, a direção muda: baixo e bateria empurram a música para a pista e recuperam aquela linhagem do indie dos anos 2000 em que o rock voltava a descobrir o prazer de dançar. “Sobriedade Seletiva”, assinada pelo mesmo núcleo de produção, leva esse gesto adiante, embaralhando punk-disco e house: guitarra e pista vibram na mesma temperatura de perigo, urgência e prazer.
Se nessas faixas o corpo é convocado ao movimento, “Caminhada” muda o relevo da escuta e deságua num cancioneiro brasileiro marcado por matrizes baianas, nordestinas e por uma melancolia que desloca novamente o centro de gravidade do álbum. Já em “Desobediente”, com Nave na produção conjunta, rap e metal se entrelaçam sem que um precise legitimar a presença do outro; o riff pesado sustenta uma melodia de caráter itinerante, atravessada por referências de world music e por acentos orientais que fazem a faixa circular por diferentes paisagens sonoras. Ou seja, o álbum trabalha por contaminação e fricção: as linguagens permanecem reconhecíveis, mas deixam de obedecer a demarcações estanques. Se o nome próprio não fixa Pitty numa identidade única, o som também se recusa a reduzir o rock a uma forma definitiva.
Essa abertura se estende à produção, assinada por Pitty em parceria com Rafael Ramos, responsável também pela mixagem do disco. A masterização foi feita no Sterling Sound, por Randy Merrill, que tem no currículo trabalhos de artistas tão distintos quanto Foo Fighters, Billie Eilish, David Bowie, Charli XCX, The Rolling Stones, Lady Gaga e Slayyyter. É essa combinação que ajuda a explicar como Pitty consegue ser coeso sem se tornar uniforme: de um lado, a continuidade de um núcleo autoral que atravessa o álbum inteiro; de outro, a experiência de Merrill em universos sonoros tão distintos.
Pitty é um disco suado. Isso importa – e muito – num período de produção musical marcado pela possibilidade técnica de manipular quase tudo. A assepsia figura entre as grandes tentações estéticas do nosso tempo: eliminar ruídos, corrigir desvios, suavizar o inconveniente até que nada ameace sair do lugar. Pitty faz o contrário: seu refinamento técnico não esteriliza o pulso humano, e o acabamento não limpa o sangue da cena.
No fim, talvez seja por recusar uma imagem definitiva de si que Pitty acabe funcionando como uma forma radical de autorretrato: não mostra uma representação pronta, mas deixa escutar o movimento interno de um corpo que continua se fazendo. Pitty não compete com a sucessão acelerada de estímulos de uma cultura midiática em que tudo parece condenado a virar novidade e esquecimento – faz outra coisa: atravessa esse fluxo para alcançar aquilo que ainda é capaz de permanecer e nos afetar. E, quando chega lá, não encontra uma essência intacta esperando para ser revelada. Encontra muitas. Todas com o mesmo nome.
